Entrevista Alcest: Kodama, Brasil e outras coisas mais

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Por Fabricio Campos | Tradução Elyson Gums

O Alcest é uma das bandas mais aclamadas no que se refere ao Black Metal e Post Black Metal BlackGaze. A banda já está em seu quinto álbum e depois da sua segunda passagem pelo Brasil no Overload Music Festival em São Paulo, e do lançamento do mais recente disco, Kodama, entrevistamos a dupla francesa e trouxemos o resultado dessa entrevista para vocês. Confiram!

Fabricio Campos: Primeiramente quero agradeço a oportunidade, é uma enorme honra de estar fazendo essa entrevista com a banda. Analisando toda a cronografia do Alcest, desde o lançamento do Tristesse Hivernale (2001) até Kodama (2016), podemos dizer que banda mudou radicalmente, se tornando a percussora do Blackgaze na França. Como foi essa transformação de estilos e como isso afetou o Alcest?

Alcest: Quando comecei a banda, era muito jovem, tinha por volta de 15 anos. No início, havia descoberto o black metal e queria fazer esse tipo de som. Nada muito original, sabe, criar algo no estilo das bandas norueguesas. Obviamente não me satisfez, porque queria fazer algo mais pessoal.

Por isso, não considero a primeira demo como um trabalho do Alcest. Algumas pessoas até me disseram que eu poderia dar outro nome, mas gosto de ‘Alcest’, então permaneceu assim. Mas pra mim, é praticamente um álbum de outra banda.

Já são quase quinze anos, evolui como pessoa, passei por diferentes momentos e inspirações, então a música evoluiu bastante do primeiro álbum até o que é agora. São dois caminhos diferentes, o que penso ser normal.  É difícil fazer uma análise pessoal (sobre como as mudanças afetaram a banda). Talvez no futuro eu analise a discografia, mas não gosto muito de observar o passado. Prefiro olhar para o futuro, para evoluir enquanto músico e apresentar algo novo a cada trabalho.

F.C: Quais são suas principais influências e como elas contribuem para seu trabalho?

Foto por William Lacalmontie
Foto por William Lacalmontie

Alcest: Sou influenciado por várias coisas, não apenas música, claro. Esse projeto sempre falou sobre espiritualidade, temas como vida depois da morte. É uma música ‘de outro mundo’, realmente vem de um espaço diferente. É muito, muito pessoal.

Sobre as influências: podem ser filmes, pinturas. Para os visuais, fui influenciado por pinturas dos Pré-Rafaelitas, como por exemplo, Waterhouse (John William, pintor italiano). E, claro, a natureza também me inspira bastante, porque quanto a contemplo, me sinto mais conectado ao meu lado espiritual. Gosto bastante de caminhar em florestas e essas coisas.

Sobre bandas, tive diversas fases. Por exemplo, quando estava comprondo Le Secret and Souvenirs d’un Autre Monde’, estava ouvindo o compositor francês Yan Tiersen. Talvez Burzum – estava ouvindo um pouco de black metal norueguês. Mas sempre ouço coisas diferentes. Gosto de New Wave, ouço Joy Division, The Chameleons, The Cure; também post-rock, gosto de Explosions in the Sky. Depois descobri shoegaze, bandas como Slow Dive e Cocteau Twins. Recentemente tenho ouvido Grimes, uma cantora canadense, e coisas mais grunge, como Dinosaur Jr. e Sonic Youth. Também gosto muito de Type O Negative, especialmente October Rust.

F.C: Tristesse Hivernale foi lançado em 2001, pelo selo sul americano Drakkar Productions. Como ocorreu esta parceria? Qual foi a expectativa gerada pela a banda?

Alcest: Morava em uma cidade isolada da cena de metal, não havia headbangers por perto. Por isso tive que aprender a tocar vários instrumentos, não conseguia encontrar ninguém para tocar. Finalmente descobri este celo, o escritório deles não ficava muito longe de onde morava.  Os encontrei lá e eles gostaram do som, quiseram lançar a demo. É um selo bem underground e imaturo, estou feliz por não estar mais ligado a eles.

Não sei quais eram minhas expectativas na época, eu era muito jovem e só estava feliz por lançar algo, eu acho.

F.C: Amesoeurs, formada na cidade de Bagnols-sur-Cèze, em 2004, foi pioneira no Blackgaze na França e teve fortes influências de Post-Punk. Trazia temas do cotidiano como melancolia da vida moderna, assim como a isolamento nas grandes cidades. Como surgiu a idéia de criar a banda? O Amesoeurs influenciou de algum modo o Alcest?

Alcest: surgiu em um momento em que estava bastante focado no Alcest, especialmente em seu lado mais brilhante e luminoso, então a música era bastante positiva. Eu estava bastante ansioso e melancólico, achei que precisava de outra banda para expressar esse lado mais obscuro. Também tenho uma fascinação pelas grandes cidades e suas luzes, e o fato de que você está cercado por milhares de pessoas e ainda assim se sente isolado – eu realmente gosto desses temas.

Estava ouvindo bastante post-punk, como Joy Division, e achei que seria interessante misturar o black metal tradicional e algo mais nessa linha, mais indie rock. Esta é a história da criação de Amesoeurs, mas não há qualquer influência sobre o Alcest, porque veio depois e além disso são dois projetos bem diferentes.

F.C: Em 2007, a banda lançou o Souvenirs d’un Autre Monde, o álbum que ditou o norte que o Alcest tomaria dali em diante. Como ocorreu essa mudança de estilos?

Alcest: Eu diria que foi Le Secret que ditou a direção da banda, porque pra mim foi o primeiro ábum de verdade do Alcest. Eu queria fazer algo mais pessoal e havia esses temas sobrenaturais que queria abordar. Tive uma experiência quando era criança, com memórias de um lugar que não exite aqui, um lugar angelical, incrível, que eu gostaria de falar sobre.

Decidi fazer do Alcest uma forma de expressão musical sobre esses assuntos. Trouxe elementos de black metal, mas estava buscando algo mais frágil, otimista e nostálgico, sabe? Black metal é geralmente bem obscuro, e minha intenção com Alcest era fazer justamente o oposto.

F.C: Em 2010 o Alcest lançou aquele que julgo um dos melhores álbuns da banda, Écailles de Lune, que trouxe junto à arte de Fursy Teyssier na capa, o que se tornaria uma das marcas registradas da banda, A banda trazia uma sonoridade mais suave, resgatando as pegadas viscerais do Black Metal, com vocais rasgados; outra marca do Neige. Qual foi a maior inspiração para o Écailles de Lune?

ecailles-de-lune

Alcest: Gostei bastante desse álbum também, o escrevi de maneira muito espontânea. Estava tentando fazer algo diferente do álbum que havia acabado de lançar (Souvenirs d’un Autre Monde, 2007). Depois desse disco, inspirado pela primavera, pelo verde e pelo sol, senti que precisava fazer algo mais triste.

Neste período, me mudei para Paris e estava me sentindo bastante solitário, com sentimentos melancólicos. Usei o beira-mar como uma metáfora para estes sentimentos, e as letras são sobre escapar para o Abismo, entende? Não de uma maneira sombria, mas tratando o Abismo como uma espécie de reino mágico em que você gostaria de estar.  Este álbum tem uma personalidade bastante única.

F.C: Por que a escolha de usar um poema de Paul-Jean Toulet em “Sur l’océan couleur de fer”?

Alcest: Encontrei o poema em um livro de poesias e achei muito bonito e adequado para a música. Sur L’Océan Couleur de Fer traz essa evocação do mar, da paisagem marítima à noite.

F.C: Em 2014, foi lançado o álbum Shelter. Por que quiseram gravar em Reykjavík, na Islândia? E como surgiu a participação de Neil Halstead (Slowdive, Mojave 3)? Como surgiu a ideia do clipe de Opale?

Alcest: Sempre gostei da produção do Sigur Rós, então fomos para o mesmo estúdio em que eles gravam, para encontrar essa prdução mais focada no post-rock. Passamos dois meses gravando Shelter e foi uma experência fantástica.

Sobre o Neil: SlowDive é, se não a minha banda favorita, uma das que mais gosto.  Entrei em contato com ele há bastante tempo, mas sem resposta. Até que um dia ele respondeu dizendo que estava interessando em participar, foi brilhante.

F.C: Em 2014 a banda veio ao Brasil e tocou no Overload Music junto com bandas excelentes, foi a primeira edição do evento e o show gerou grande repercussão no Brasil, quais foram suas impressões deste show e dos fãs brasileiros?

Alcest: Esta foi a primeira vez que tocamos no Brasil, mas já sabíamos que tínhamos bastante fãs aqui, então estávamos ansiosos para tocar. Tocamos em um clube no Rio, depois no Overload em São Paulo. Foi bem legal, a casa estava cheia e os fãs são bem agitados, nós amamos.

F.C: Em 30 de setembro vocês lançaram Kodama, que traduzido do japonês significa “Espírito da Árvore” e tem como um dos elementos a inspiração no filme A Viagem de Chihiro. Quais são as suas impressões sobre o disco?

Alcest: É uma espécie de volta às antigas músicas do Alcest. Shelter foi uma gravação mais ambiente, com focos nas guitarras. Agora fizemos algo mais rítmico e agressivo, usando dinâmicas que a banda trazia nos primeiros trabalhos. Gostamos de alternar melodias e passagens calmas com momentos de agressividade. Kodama também têm vocais rasgados.

De certo modo, é uma volta as raízes, mas Kodama é obviamente diferente. Tem uma produção mais moderna, com os elementos de indie rock presentes em Shelter. É uma mistura entre este disco e o que fizemos antes, um híbrido. Estamos orgulhosos e esperamos que os fãs brasileiros também tenham gostado.

F.C: Também em setembro de 2016 a banda voltou ao Brasil e tocará no Overload Music Fest, e tocou na integra Écailles de Lune em um show memorável e singular em toda a América do sul junto com as bandas katatonia, Labirinto e Vincent Cavanagh. Como foi para o Alcest voltar ao Brasil?

Alcest: Foi ótimo, diria que melhor do que nossos shows em 2014. A plateia estava incrível, certamente adoramos tocar no Brasil. Desta vez também tivemos tempo de fazer turismo, conhecemos um pouco de São Paulo. Encontramos fãs antes e depois do show, achamos isso importante e gostamos de estar perto dos nossos fãs.  Foi um momento especial e queremos vir de novo.

Por Alessandra Tolc - www.Photolc.com.br - www.facebook.com/Photolc.com.br
Por Alessandra Tolc – www.Photolc.com.br

F.C: Novamente agradeço essa grande oportunidade, para mim foi uma honra, gostariam de deixar algum recado para os fãs brasileiros?

Alcest: Eu é que agradeço, foi um prazer. Para os fãs brasileiros: queremos dizer que os amamos e que os shows que fizemos foram magníficos. Esperamos que na próxima vez, a plateia seja ainda maior, então tentem falar sobre o Alcest para as pessoas, espalhem a palavra. Esperamos voltar muito em breve, então até mais!
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