Basalt: peso megalítico no sludge nacional.

SHARE

Por Erick Cruxen

Uma das bandas que mais me chamou atenção no meio alternativo brasileiro, o Basalt está prestes a lançar seu primeiro registro sonoro. Já acompanhei alguns shows dos caras, e posso dizer que se repetirem as suas performances ao vivo, virá um grande disco por aí.  Os membros do grupo tocam/ou já tocaram em diversas bandas célebres do undergroud pesado de São Paulo. Tive uma conversa com o pessoal, sobre os planos, influências, e algumas curiosidades sobre os outros projetos dos membros da banda.

Erick Cruxen: Como foi o processo de gravação do disco? Sairá em formato físico e por algum selo?
Marcelo Fonceca: Gravamos o disco no Estúdio Duna, do Kiko (Reiketsu) e do Kexo (Infamous Glory e Abske Fides), que são amigos nossos há muito tempo e também tocam em bandas que gostamos muito. A gravação foi bem rápida, fizemos tudo em poucos dias, até porque queríamos que tudo soasse o mais natural e orgânico possível. Talvez um lance curioso é que o nosso baterista, o Victor, não usa tons com a gente (na outra banda dele, o Surra, usa tons e pedal duplo e uma porrada de coisa), apenas caixa, surdo, bumbo e poucos pratos, tanto nos shows e ensaios quanto na gravação. O mais louco é que entramos com algumas referências na cabeça de como queríamos soar e acabou saindo de outro jeito que fez até mais sentido, no final das contas. Talvez pelo fato de a banda ser nova e nunca ter gravado nada junto antes essa ideia de como soaríamos ainda estava em aberto.

Erick: Por que decidiram escolher essa música do disco como primeira para divulgar?
Marcelo: Pensamos, em conjunto, que era uma música que representa a banda como um todo, que mostra diversos elementos que talvez apareçam de forma mais específica em outras faixas do disco. Mas, mesmo com algumas diferenças aqui e ali, todas as músicas compartilham de um sentimento que é perceptível quando uma pessoa ouve o disco ou assiste a um show nosso.

Erick: Quais são as maiores referências nas músicas que vocês compõem?
Marcelo: Essa é difícil, acho que todos temos influências muito variadas já que cada um curte muitas coisas diferentes. Mas acho que posso citar algumas bandas que são unanimidade entre nós cinco, como Amenra, Oathbreaker, Neurosis, Converge, Cursed, Eyehategod, Breach e Old Man Gloom, entre outras que nos inspiram de uma forma ou de outra. Tentamos não nos prender de nenhuma forma na hora de compor, com todos opinando e dando ideias na hora de montar as músicas.

Erick: Quando e como surgiu a banda?
Marcelo:
A Basalt começou no fim de maio de 2015. O lance é que eu sempre quis montar uma banda com o Marcelo (Fonseca, vocalista) e já estava falando com o Pedro (Alves, guitarrista) há uns tempos sobre tocarmos juntos também. Uns meses antes de começarmos a ensaiar fiz um post no Facebook dizendo que eu e o Pedro estávamos querendo montar uma banda e coloquei algumas referências de som. Na mesma hora, o Victor (Miranda, baterista) me escreveu dizendo que estava a fim. Aí foi questão de juntar todo mundo. Chamei o Marcelo, que chamou o Flávio (Scaglione, baixista), e marcamos de nos encontrarmos. Logo no primeiro ensaio já saímos de cara com dois sons prontos. Depois desse primeiro ensaio em que tudo rolou tão bem, acho que todo mundo viu que a banda seria mais do que um “projeto”.

Erick: Os integrantes do Basalt tocam ou já tocaram em outras bandas de metal ou hardcore. Isso contribui para a banda adquirir referências variadas? Quais são os outros grupos que cada um já participou?
Marcelo: Creio que contribui não só para trazer referências na hora de compor, mas principalmente para a parte mais prática, de pensar em como realmente fazer a banda acontecer. Tipo como fazer as coisas, como e quando gravar, de qual forma lançar, ver quais shows queremos realmente fazer, essas coisas que toda banda precisa decidir no dia a dia. Além do que, acho que o fato de tocarmos e/ou já termos tocado em outras bandas, torna tudo mais fácil no relacionamento entre os cinco e também no sentido de saber melhor o que queremos fazer e como fazer para chegar lá, evitando assim dores de cabeça e estresse desnecessários. Sobre as bandas que já tocamos, eu toquei por muitos anos no Meant to Suffer, o Marcelo toca n’O Cúmplice e já passou pelo Constrito, obviamente, além do Escuro, L’Enfer e0, Intifada, entre outras. O Pedro toca no Magzilla, o Victor no Surra, e o Cuca (Flávio) tocou no Stench of Death, entre outras.

Erick: Existem muitas bandas de post-metal, sludge e variantes surgindo no Brasil. Como vocês percebem essa “tendência”? A qualidade e o nível de exigência desses grupos, e do público, também está mudando?
Marcelo: Não sei com certeza se é uma tendência apenas no Brasil, mas talvez seja algo mais global, já que gêneros como sludge e post-metal/post-hardcore, que antes ficavam mais à margem do metal no geral, ficaram mais em evidência na última década, talvez parcialmente graças à popularização da Internet e todo o acesso a sons diferentes que isso trouxe. Creio que o fato de serem estilos mais abertos, sem tantas “regras”, fique mais interessante para termos sim mais coisas interessantes nessa linha, principalmente no que diz respeito a ouvir algo diferente, mas isso não é garantia de qualidade por si só.

Erick: Há espaços destinados para o tipo de som que o Basalt faz em São Paulo e no Brasil? Existem canais de comunicação e divulgação para essas bandas?
Marcelo: No geral, os espaços e os canais de divulgação são os mesmos para todo mundo que faz parte do underground, em que cada vez menos existem distinções entre esse ou aquele tipo de som. Os espaços são criados e geridos de alguma forma por quem faz parte da cena como um todo, sem distinção de estilo de som. Mas é claro que existem alguns espaços, físicos ou não, que têm mais a ver conosco e com o estilo que tocamos por inúmeros fatores que não se prendem apenas à música, mas também com a forma como pensamos e encaramos a música, casos da Dissenso e do Black Embers, entre outras iniciativas, como a Sludge House – isso só para ficar em São Paulo.

Basalt - Sludge de São Paulo

Erick: Quais os planos futuros do Basalt?
Marcelo:
Estamos finalizando tudo para lançar o disco em CD o quanto antes, talvez até o final do ano – a arte será feita pela Carolina Scagliusi (Test, DER). Além disso, já temos alguns sons novos prontos e queremos gravar um EP ou split no fim do ano, talvez no começo de 2017.

Erick: O Marcelo tocou em uma das primeiras (e, na minha opinião, das melhores) bandas nacionais com influência do post-metal, o Constrito, e ainda organiza o Festival Black Embers. O que mudou desde a época que você começou?
Marcelo:
O Constrito esteve em atividade de 1996 a 2003. Ter participado dessa banda foi muito importante na minha experiência pessoal, por mostrar-me um caminho possível. A música subterrânea nesse período já vinha mudando e por sorte estávamos antenados ouvindo e tentando implementar tudo isso no que fazíamos. Lembro dessa época como um período para descobrir bandas.  Muitas delas já estavam em atividade há algum tempo, mas me impactaram pessoalmente como, por exemplo, Swans, Neurosis, Godflesh, Jesu, Crowbar, High on Fire, Converge, His Hero is Gone, Burst, Bolt Thrower, Grief, Breach, Eyehategod, Assuck, Melvins, Botch, At the Gates, Mörser e outras.

E, de lá para cá, muita coisa mudou. Mudou a forma de adquirirmos e consumirmos música. A geração do fim dos anos 1980 passou das fitas cassete ao CD-R, avançando ao download de mp3. As poucas bandas que conseguiam ver seus lançamentos em vinil se multiplicaram depois por várias outras que conseguiam por si próprias lançar o próprio CD. Muitas bandas investiram em se autoproduzir não ficando dependentes de um produtor de estúdio.

A forma das próprias bandas apresentarem e divulgar o que produzem mudou. A rede de fanzines e troca de cartas dos anos 1980 e 1990 praticamente morreu no começo dos anos 2000. Mas, por outro lado, surgiram as redes sociais, os blogs, os fóruns e os dispositivos de comunicação em tempo real, que facilitaram o trâmite, a troca de informação e, para bem ou para mal, aproximaram uma porção de regiões. Surgiram o YouTube e plataformas de streaming que facilitaram mostrar ao mundo, shows, discos e raridades, assim como mostrar a cara de uma banda que você poderia passar anos tentando decifrar a partir de anúncios xerocados toscos.

Mudou a estrutura dentro desse mundo subterrâneo que atuamos. Se na época do Constrito fazer show correspondia a 10 bandas usando um mesmo amplificador Marshall (o que era uma vitória) de 80 watts, levado de ônibus ou de carona, hoje pelo menos em termos de estrutura e instrumentos a situação mudou. Lógico que todos estamos sujeitos a passar por situações precárias, mas hoje ao menos temos condições de nos precaver para ter resultados melhores. Ou seja, o “faça-você-mesmo” ficou mais preciso, mais instrumentalizado.

Erick: Como é organizar um festival desse calibre, hoje?

Marcelo: Organizar o Black Embers Fest é bem trabalhoso, pois por uma opção minha e da Bianca (minha esposa e parceira) o festival é feito na base do “faça-você-mesmo”. Temos alguns amigos próximos, como o Flávio Scaglione (Basalt), o Cauê Nascimento e o Alessandro Soares (O Cúmplice) que estão sempre ajudando na produção. A Daniela e o Douglas, da Ugra, nos ajudaram a criar o espaço deles dentro do fest na última edição e deu muito certo. Acredito que repetiremos a dose no futuro.

Gerir para fazer acontecer envolve uma porção de fatores, como selecionar bandas diferentes entre si, que sejam interessantes, e também interessadas em participar. Bandas que entendam o espírito por trás dessa ideia. Que entendam que o evento é construído conjuntamente e não é o palco em que um só brilha. Que entendam que o evento é feito por pessoas, para pessoas e que não somos uma produtora. Sempre quisemos que o fest fosse variado musicalmente. Não tenho nada contra eventos de um único estilo musical, mas acho que as ideias diferentes circulam quando nós proporcionamos situações para isso. Outro desafio é achar um espaço adequado, de fácil acesso e que comporte tudo que nos propusermos a fazer.

Basalt - Sludge de São Paulo

Erick: As bandas e o público entendem o caráter do festival, de toda correria que envolve o evento?

Marcelo: Sobre as bandas, nunca tivemos problemas. Tem bandas que queríamos ver tocar e não conseguimos, tem bandas legais que vieram a nós e foram gratas surpresas. No fazer o fest, já aconteceram diferenças de opinião que foram resolvidas no diálogo. O diálogo, sempre ele, será o definidor e o mais importante. Uma das coisas mais legais é ver que tivemos bandas de lugares muito diferentes, como interior e Grande São Paulo, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo, Minas Gerais, Bahia, Brasília, Portugal e Finlândia.

Acredito que temos dado sorte até agora, conseguimos fazer quatro edições (três fests anuais e uma edição especial fora de época). Isso totaliza quase 60 bandas em 10 dias de show, praticamente. Tivemos exposições com mais de 20 artistas. Três tardes de autógrafo com lançamento de livro, feira envolvendo mais de 10 selos. Aconteceram duas collabs incríveis (Deaf Kids + O Cúmplice & Afro Hooligans + Jupiterian). Tudo isso é cansativo, mas muito gratificante, principalmente depois de feito.

Cara, agradeço demais pelo tempo e pela paciência em contar pra gente um pouco mais sobre a Basalt e tudo o que corre paralelo à banda. A gente fica na espera do lançamento do disco, e pode contar com a gente pro que der e vier!

Membros:
Pedro Alves
Luiz Mazetto
Victor Miranda
Marcelo Fonseca
Flávio Scaglione

Local: São Paulo/SP

Gênero: Sludge/Doom/Post Rock

https://www.facebook.com/basalt666
https://soundcloud.com/basalt666