Black Sabbath no Brasil: The End

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Crédito: Edi Fortini https://www.facebook.com/EdiFortini

Por: Matheus Jacques

Existem coisas na vida que acontecem uma ou duas vezes e acabam não se repetindo jamais. São experiências que ocorrem pontualmente e a você caberá apenas relembrar o momento, até o dia de sua partida desta existência. Ver um show do Black Sabbath, ainda mais um de despedida, pode ser considerado um desses momentos.
Tidos como grandes precursores da música pesada e uma de suas maiores influências, Ozzy Osbourne, Geezer Butler e Tony Iommi são três quartos da formação original de uma banda que ajudou a dar formas ao rock and roll e ao heavy metal, e persiste até hoje mesmo após décadas de excessos e intempéries. A esta formação se junta atualmente o baterista Tommy Clufetos, em substituição ao membro fundador Bill Ward, que já não faz parte do grupo desde uma série de desacordos e rusgas nos bastidores.
Pois foi esse time que trouxe ao Brasil a tour “The End”, tecnicamente a derradeira dos caras após uma longa estrada de muita música, muitos shows, álbums e exageros. Muito alardeada e atraindo bastante atenção, “The End” teve quatro datas por aqui pelo Brasil, tendo começado por Porto Alegre, passando por Curitiba, depois Rio de Janeiro e encerrando em São Paulo.

No meio do caminho havia a fria e chuvosa capital paranaense, em que tocaram no dia 30 de novembro e para onde a reportagem da October Doom Magazine rumou para conferir a despedida dos caras. Junto a eles nas datas brasileiras veio uma das bandas ”sensação do momento”, os excelentes americanos do Rival Sons, que entregam um hard blues encorpado e vigoroso e vem arrastando multidões nos lugares em que passam, tendo sido convidados pessoalmente pelos tiozões de Birmingham para abrirem a extensa turnê mundial.
Abertura de gala: Rival Sons

Créditos: Leyre Ellen dos Santos

Quando o relógio assinalava 19h56, Rival Sons já ocupava o palco e entoava os primeiros acordes de “Electric”, faixa de seu ótimo álbum Great Western Valkyrie (2014). Com bastante energia, um trabalho excelente de guitarra de Scott Holiday e a voz quase sobrenatural de Jay Buchanan, os californianos fizeram basicamente duas coisas: não desiludiram os que já conheciam sua música e seguramente cativaram novos ouvintes. Os caras mandaram ver com muita qualidade em uma apresentação cujo setlist teve como base o já citado álbum, mas que também contemplou algumas faixas do Pressure and Time (2011), um de seus discos mais elogiados, apresentando a faixa “Torture”, por exemplo. Com menos canções, outros também foram lembrados, como Head Down (2012), particularmente o favorito deste que vos escreve, e o mais recente e grandioso, Hollow Bones (2016), de onde saiu a encantadora “Fade Out”.

O público pode ter sentido um pouco a falta de mais faixas dos dois últimos discos citados, já que a apresentação do quarteto teve apenas sete músicas. Mesmo assim, com seus cerca de 40 minutos de palco, o Rival Sons conseguiu dar seu recado muito bem e aqueceu a rigor a plateia que esperava ansiosamente a atração principal da noite. Em seu segundo show no Brasil (os caras já haviam tocado por aqui no festival Monsters of Rock, em São Paulo, em 2015), o grupo apresentou a cara dessa nova safra do “rock revival” e arrancou até alguns coros aclamando seu nome ao fim de seu espetáculo.

Setlist:
Electric Man
Secret
Pressure and Time
Open my Eyes
Fade Out
Torture
Keep On Swinging

 

BLACK SABBATH – Alquebrados, mas vivos!

Créditos: Leyre Ellen dos Santos

Seguindo a pontualidade da noite e colocando ainda mais lenha na fogueira da ansiedade, prenunciada pelas luzes apagadas e pelo breu da noite, chegava aos telões do palco da Pedreira Leminski a animação da “The End” tour, com uma reunião de imagens apocalípticas soando as trombetas da aparição da atração principal da noite. Pouco depois, lá estavam eles no palco: Ozzy, Tony, Geezer e Tommy.
Com o público irrompendo em aplausos e berros, três quartos da formação original de uma das maiores bandas de rock e metal de todos os tempos aparecia para todos. Fica meio difícil definir a superlativa energia com a qual ovacionada a banda, uma verdadeira instituição da música pesada. Sobreviventes, lendas.
A apresentação do Black Sabbath durou por volta de uma hora e meia, e foi aberta pela icônica faixa homônima do álbum de seu estreia, de 1970. Ali, já se evidenciava o fato de que estávamos diante de um conjunto com mais de quatro décadas de existência e provações, para o bem e para o mal: a energia soturna e poderosa contrastava com a postura castigada, mas ainda esforçada, do frontman Ozzy Osbourne. Este se mostrou empolgado e aparentemente bastante contente de estar ali, incitando o público, clamando por palmas, por mais animação, numa interação bacana com o público. “Fairies Wear Boots” seguiu o culto e aos poucos foi mostrando uma banda que se achava mais no palco, “pegando no tranco”. Até a guitarra de Iommi, inicialmente um tanto baixa, logo foi tomando mais corpo e entrando no ponto certo.
O setlist passou por vários dos principais trabalhos da banda com Ozzy, como Black Sabbath (1970), Paranoid (1970), o icônico Master of Reality (1971) e Vol. 4 (1972). Após tantos anos de covers, foi especialmente arrepiante finalmente poder conferir a versão original e ter a alma arrepiada com “Into The Void”. Faixas marcantes como “War Pigs”, “Paranoid”, “Iron Man” e “Children of the Grave” foram executadas. Inesperado foi poder conferir no setlist “Dirty Women”, do álbum Technical Ecstasy (1976).

Créditos: Leyre Ellen dos Santos

Clufetos se mostrou eficiente e empolgado. Apesar de seu solo um tanto exagerado e longo em “Rat Salad”, o cara realmente manda bem nas baquetas. Geezer exibiu sobriedade e segurança, como esperado. Mas realmente especial foi poder ver a resiliência do “homem de ferro”, Tony Iommi, que enfrentou uma dura batalha contra o câncer e lá estava, altivo e sólido, castigado pelo tempo mas desfiando toda sua imponência em riffs incendiários. Uma referência para uma quantidade imensa de guitarristas.
No fim das contas, era o Black Sabbath no palco. São décadas de exageros, colisões e histórias de sobra para contar. Não há muito o que se criar de expectativa em relação a uma reunião de peças como estas: os danos e as “cicatrizes” são evidentes, o tempo é inclemente e castiga. Apesar disso, é algo sem muitas definições claras a oportunidade de poder conferir uma apresentação dessa magnitude, com caras que buscaram dar o seu melhor, entregar uma apresentação esforçada, convincente, fazendo um passeio por toda uma história de música pesada. Nesse ponto, o show dos ingleses do Black Sabbath conseguiu aquecer por uns bons momentos até a fria Curitiba, e valeu a pena cada segundo.
Setlist:
Black Sabbath
Fairies Wear Boots
After Forever
Into the Void
Snowblind
War Pigs
Behind the Wall of Sleep
N.I.B. (com intro de “Bassically”)
Rat Salad (com solo de Tommy Clufetos)
Iron Man
Dirty Women
Children of the Grave
Paranoid (bis)

Nota: Esta resenha foi publicada em nossa edição #65. Confira a edição online!

Cartaz da turnê