D E S I R E: O Corvo nunca morre.

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Entrevista por Rafael Sade

Quando perguntamos sobre metal em Portugal para qualquer pessoa do mundo, é inegável que a primeira banda que nos vem em mente é o Moonspell. Mas, e no Doom Metal? Os lusitanos do Desire são os pioneiros da música arrastada e melancólica portuguesa, e o princípio de sua história vêm à tona com o relançamento em comemoração de 20 anos ao álbum “Infinity…”. Corvus Tear (vocais) e Flame (bateria) são DESIRE, e nos contam sobre esses 22 anos de banda, a trajetória e o retorno às atividades após um breve período de reflexão.

ODM: O álbum “Infinity… a Timeless Journey Through an Emotional Dream” completou 20 anos e se tornou um clássico do Doom Metal europeu. Olhando para trás, vocês imaginariam que a partir desse álbum o Desire seria uma banda tão importante e referência mundialmente?

D E S I R E: Quando entramos nos estúdios Rec ‘n’ Roll em julho de 95, a ideia inicial era gravar uma demo-tape de forma mais profissional. Estava completamente fora dos nossos planos imaginar, ou sequer perspectivar que o ‘Infinity…’ pudesse vir a tornar-se no nosso primeiro álbum, apesar de termos ficado com a sensação de que tínhamos em mãos era algo diferente e especial. Contudo, após terminarmos as gravações, fomos imediatamente alvo de curiosidade por parte de algumas editoras que tinham conhecimento da situação, as quais já conheciam o curto trajeto da banda até então, baseado nos nossos registos anteriores, a promo-track ‘Death Blessed By A God’ de 93 e a rehearsal-demo ‘Desire’ de 95. Foi nessa fase que chegámos a um entendimento com a portuguesa Skyfall Records e ‘Infinity…’ ao contrário do que estava pensado inicialmente, acabou assim por ser editado em formato CD e figurar-se como o primeiro álbum dos D E S I R E. Estávamos longe de imaginar que o disco pudesse vir a adquirir o status que tem, até porque sabíamos perfeitamente que seria um álbum ‘difícil’ para o público por toda a sua envolvência musical, conceptual e dramática, sobretudo em Portugal, onde éramos os pioneiros e únicos a possuir uma sonoridade assumidamente doom… mas o tempo encarregou-se de nos mostrar o contrário e gradualmente foi adquirindo um reconhecimento enorme e um valor especial, tornando-se uma referência dentro do estilo, acabando por se transformar num disco de culto.

ODM: O álbum será relançado via Alma Mater Books & Records, de propriedade de Fernando Ribeiro (Moonspell), com uma nova capa. Qual a sensação de rever novamente esse álbum a venda no mundo digital de hoje em dia para as novas gerações de fãs?

(Álbum: Infinity… a Timeless Journey Through an Emotional Dream – Nova capa)

D E S I R E: A reedição será, como referiste, através da Alma Mater e sentimo-nos profundamente satisfeitos e honrados com esse fato e 20 anos depois, ver o ‘Infinity…’ ser editado no formato duplo vinil gatefold e digipak CD, com um look mais moderno e atual, deixa-nos com uma sensação de enorme orgulho. No fundo, é o reconhecimento de uma obra que acabou por se tornar imortal, e a primeira dentro do género que nos movimentamos, em território português. Fazia muito tempo que o álbum justificava uma reedição, nomeadamente pelo interesse que temos tido ao longo dos anos para o efeito. Quanto ao fato de como vai ser a receptividade das novas gerações, estamos algo expectantes para a sentir e pensamos que o concerto que iremos fazer no próximo dia 16 Dezembro no RCA Club em Lisboa, será uma boa forma de podermos avaliar esse aspecto…

ODM: Além das 7 faixas clássicas, teremos alguma música extra no álbum?

D E S I R E: Ainda foi ponderada a hipótese de se incluir algum material extra nesta edição, mas o alinhamento original será mantido, tendo sido o material todo remasterizado…

ODM: Previsão de lançamento para o mercado europeu e mundial seria para qual data?

D E S I R E: Pensamos que será a partir de dezembro próximo que essa situação começará a ocorrer…

ODM: Sou fã confesso da banda, mas como a internet era precária naqueles dias eu só tive conhecimento após o lançamento do EP “Pentacrow”. São sobras do álbum “Infinity…”? Considero a trilogia “When Sorrow Embraces My Heart” fantástica!

D E S I R E: ‘Pentacrow’ em termos de obra conceptual, foi pensado e estruturado para efetuar uma ‘ponte’ entreo “Infinity…” e o “Locus Horrendus”, devido a todo o conceito e temática lírica, por esse motivo foi considerado e editado em formato EP (apesar da duração…). Incluem-se os temas ‘A Ride In A Dream Crow’ (incluída no “Infinity…”) e ‘Death Blessed By A God’ (promo-track ’93) remasterizada para este lançamento. A trilogia ‘When Sorrow Embraces My Heart’ é o tributo aos deuses suecos Candlemass através do icónico ‘Solitude’, são temas compostos posteriormente à edição do nosso disco de estreia.

ODM: Vocês ficaram conhecidos de vez aqui no Brasil com o álbum “Locus Horrendus: The Night Cries of a Sullen Soul”, lançado aqui no Brasil, em 2003 e que para mim é a grande obra prima do Desire. Além de usarem muitos versos inspirados em Fernando Pessoa vocês colocaram algumas vinhetas dos filmes The Crow e HellRaiser. Como surgiram essas ideias e como foi a reação mundial ao álbum?

D E S I R E: “Locus Horrendus”, o nosso terceiro disco editado em 2002, foi licenciado em território brasileiro através da Cathedral Rock Machine, e foi a concretização de um desejo, uma vez que desde os primórdios da banda, sempre tivemos um excelente feedback vindo do vosso país, e como tal, veio a promover e divulgar ainda mais o nome e o som da banda por aí. Ao contrário do que grande parte dos seguidores e fãns da banda pensam, todos os poemas em português no disco, assim como em lançamentos anteriores, são da minha própria autoria (Tear – vocalista), à exceção do trecho na música ‘Frozen Heart… Lonely Soul’ que é de Fernando Pessoa, uma grande referência e inspiração na temática e conceito da banda e por esse motivo, nos nossos discos, figurar sempre um poema do autor no layout, numa espécie de pequeno mote daquilo que as pessoas poderão encontrar e experimentar em cada conceito…. Quanto aos trechos retirados dos filmes a que se refere, foram usados cirurgicamente para complementar a atmosfera que é vivida e descrita no decorrer do conceito e que enaltecem grandemente o disco em termos globais. A inclusão dos mesmos, acabou por se tornar tanto lógica como quase obrigatória…

ODM: Após 22 anos o Desire anunciou em sua página oficial o fim de suas atividades, mas hibernou por pouco tempo. Ficar afastado trouxeram saudades que seriam curadas apenas com o retorno à música?

D E S I R E: Em janeiro de 2015 tomamos a decisão de pôr publicamente fim às atividades da banda, pois tínhamos atingido um ponto cuja a solução não poderia ser outra… no entanto, o nosso último concerto já tinha ocorrido em Rotterdam na Holanda em Maio de 2013 e desde então agravaram se ainda mais os problemas internos pelos quais estávamos a passar… Naturalmente que a música faz parte da nossa vida, e naquela altura foi extremamente doloroso dar como encerradas todas atividades da banda, mas sempre com a sensação de uma obra inacabada, como se um capítulo tivesse ficado ainda por escrever… Apesar de tudo, a nossa ideia nunca foi desistir, mas sim, passar por um período de reflexão e introspecção e preparar um possível regresso rejuvenescidos e com uma nova dinâmica e foco…Ponderamos inúmeros cenários, e como tal, decidimos ser esta uma boa altura para retomar atividades, com o pensamento de dar continuidade, a algo que nos é extremamente pessoal e que iniciamos à 25 anos atrás…

 ODM:  Antes do anúncio do fim, presenciei um vídeo ao vivo de uma música nova executada no festival “Dordrecht Doom Day III”. Vem álbum novo por aí?

D E S I R E: A ‘Scars Of Desillusion’ é um dos vários temas que estávamos a preparar na altura para o novo álbum. Neste momento faz parte dos nossos planos um novo disco, mas ainda é cedo para falar mais à cerca do assunto…

ODM: Eu agradeço imensamente por essa entrevista. Deixem uma mensagem para os seus fãs no Brasil.

D E S I R E: Fazemos tuas as nossas palavras e agradecemos profundamente todo o apoio que temos recebido ao longo de todos estes anos dos nossos seguidores no Brasil, assim como de zines, rádios, editoras, distribuidoras, webs, etc. e esperamos um dia concretizar o desejo de fazer umas datas no país, seria algo sem dúvida espetacular!

DOOM ON BROTHERS!

Ficha técnica:
Membros:
Corvus (Tear) – Vocal
Flame – Bateria

Formação: 1992
Local: Lisboa/Portugal
Gênero: Death Doom Metal

Links:
https://www.facebook.com/desireofficial/