Entrevista com Chant of the Goddess: Um tapa na cara da religião

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Crédito: Divulgação

Por Morgan Gonçalves

 

“No final das contas, meu principal objetivo é alfinetar as religiões”.

Chant of the Goddess é uma das bandas mais recentes do cenário doom metal no Brasil, mas sua história é muito mais profunda, cheia de surpresas e superações, ainda mais se contarmos com o grupo que lhe deu origem, a extinta Siracvsa.

Batemos um papo com Renan Angelo, vocal e guitarra da Chant.

Morgan Gonçalves: Cara, seja bem-vindo. Feliz em finalmente poder fazer esse bate papo rolar. Eu prometo que vamos tratar da Chant of the Goddess aqui, mas, antes de começarmos, explique pra gente o que aconteceu com a Siracvsa, e em que momento ela se transformou em Chant of the Goddess, se é que podemos dizer isso.

Renan: Obrigado pelo convite. Digamos que foi uma evolução. Passamos por uma fase de desgaste, afinal, foi um longo período trabalhando e, de repente, tudo estagnou. Naturalmente, fomos perdendo a força, nos desentendemos e nos separamos. Depois, acabei ficando sozinho todo esse tempo, investindo aos poucos nas mixes que faltavam e pensando se eu deveria lançar o álbum para continuar com isso ou lançar o álbum e encerrar de vez. No final, a paixão falou mais alto e resolvi continuar e reestruturar o grupo, mas aproveitei pra fazer algo que sempre desejei: mudar o nome da banda. Eu precisava colocar algo que soasse mais forte, daí veio essa mudança simbólica, o ato de ressurreição e a adição de um nome que representasse explicitamente nosso espírito e temática.

 

 

M.G: Em julho de 2016 vocês lançaram o primeiro registro com o novo nome: Demo 2: Chant of the Goddess, já com uma diferença na atmosfera em comparação ao antecessor Siracvsa. Como foi a divulgação desse trampo? Rolou legal ou ficou abaixo das expectativas de vocês?

Renan: Essa demo nada mais é que duas músicas gravadas para o próprio álbum sem terem passado pelo processo de mix, masterização etc. Ou seja, totalmente crua, com apenas alguns ajustes rasos que eu mesmo fiz amadoramente. O intuito dela foi mostrar que a banda havia mudado de nome e que ainda estava viva e que não tinha desistido do material. É claro que não tivemos muito alcance, sempre fomos impopulares no rolê. Mas a música alcançou um público graças aos canais de agitadores de stoner. Os poucos que ouviram apreciaram e elogiaram pra valer. Foi uma recepção verdadeira, coisa que eu não havia sentido com o trabalho da primeira demo.

 

M.G: A temática que vocês abordam é composta de misticismo, culturas arcaicas e forças sobrenaturais. Como trazem esses elementos para a música e para o cotidiano?

Renan: Espiritualmente eu sou um cara estranho. Pessoalmente, realmente não me importo com nenhum tipo de espiritualidade. Ao mesmo tempo, esse universo oculto me chama a atenção. Acho interessante como tudo isso afeta a vida das pessoas. No final, tudo se resume no ser humano e o medo da morte. A espiritualidade vem por única e exclusiva necessidade de suprir esse vazio, mesmo que alguns mais fanáticos digam que não.  A música da Goddess (inspirado na deusa da discórdia) explora bastante isso. Como todos nós temos esse ponto fraco, o ser humano mais ganancioso, historicamente tão baixo, se aproveita dessa falha para a própria dominação. É o que vemos desde o princípio até os nossos dias.

 

Capa do álbum

M.G: E essa capa, cara, que coisa linda! Como ela foi concebida?

Renan: Foi uma artista que está iniciando sua carreira de designer gráfico. Uma indicação de um amigo meu. A ideia base era ter a deusa e o ambiente mediterrânico ao fundo. Sempre fui interessado pelo sul da Europa, e toda aquela área do Mar Mediterrâneo, sua história, cultura e, claro, mitologia. Como disse antes, a deusa da banda foi inspirada na grega Éris, mas ela pode servir pra várias simbologias também, como, por exemplo, o fato de Deus ou o Criador não ser necessariamente um ser masculino, quero dizer, por que não um ser feminino?! Essa associação feminina e poderosa me chama muito a atenção.

 

M.G: Chant of the Goddess surgiu das cinzas, como diz a própria biografia da banda, e surpreendeu a todos com sua estreia. Existem planos de fazer uma turnê por São Paulo? Talvez outras cidades ou estados?

Renan: Sim, reuni uma nova formação a qual estamos prontos. Estaremos voltando aos poucos, até engatilhar com força. Temos o objetivo de tocar não só em SP, mas por qualquer lugar do mundo, quem sabe.

 

 

M.G: A gente sabe que boa parte do material do debut já estava composto, e o que atrasava o lançamento do álbum era o processo de gravação e tal. Já existe mais alguma coisa no gatilho pra lançar nos próximos meses?

Renan: Mais ou menos, eu tenho vários materiais soltos e ideias vagas, mas nada concreto ainda. Eu fiquei um tempo ausente da música, e cheguei ao ponto de não encostar na guitarra por meses. Como a decisão foi retomar as atividades, logo vamos trabalhar em um novo material, desta vez como mais experiência, pra fazer a coisa mais fluida.

 

 

M.G: Um disco desse nível, depois de tantos percalços, não consegue ser lançado sem uma grande colaboração. Quem são as pessoas que ajudaram a tornar esse álbum realidade?

Renan: Basicamente foram poucas pessoas, mas que deram o sangue nisso. A começar pela extinta Esporro Records, tivemos alguns problemas de estrutura com o produtor de eventos, mas foi graças a ele que chegamos até o Sul e conhecemos o excelente estúdio Hurricane, do Sebastian Carsin. No final das contas, caímos em mãos experientes na arte da produção musical. O Sebastian já é conhecido lá na área dele por gravar bandas de metal e sons mais pesados, como a própria Space Guerrilla, banda conhecida do nosso bom e velho stoner brasileiro. O Allan fez um ótimo trabalho segurando o baixo – entrou de última hora pra gravar, já que não tínhamos baixista, e fez um excelente trabalho. Mas, acima de tudo, o Sergio, que esteve comigo desde os primórdios e me ajudou a construir as músicas. Ele não entendia nada de stoner, doom, sludge e nada desse tipo de som. Mas com muito esforço e qualidade, criou uma bateria precisa. Sou grato a todos os envolvidos.

 

M.G: Agora, esse espaço é pra você falar com os velhos e novos faz do Siracvsa e do Chant of the Goddess. Manda bala!

Renan: Eu agradeço demais ao suporte e atenção que a galera vem dando. Muitos já mandam mensagens pra nossa página pedindo LPs, CDs e até camisetas. Eu fico até sem jeito em chegar e dizer que ainda não temos nada disso, mas já estou trabalhando pra ter todo o material físico necessário. Muito obrigado por esse reconhecimento e pela galera entrando de cabeça na nossa música. Tudo isso é muito importante para nós e serve de combustível para continuarmos a trazer novos materiais. Muito obrigado a todos!

 

Crédito: Divulgação

 

Ficha Técnica:

Local: São Paulo/SP

Membros: Renan Angelo – Guitarra, vocal / Guilherme Cillo – Bateria

Formação: 2014

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