Entrevista com A Dream of Poe: O final de uma trilogia na busca do interior

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Crédito: Divulgação

Por: Edi Fortini

 

O músico Miguel Santos encabeçou o projeto A Dream of Poe e recentemente lançou o capítulo final de uma trilogia de autodescobrimento para então construir algo novo. Nesse bate-papo que aconteceu por e-mail, Miguel contou sobre suas composições, projetos, mudança de residência (o músico morava em Portugal e atualmente está na Escócia), da nossa situação política atual e dos seus planos para o futuro.

O resultado ficou bem bacana e você confere aqui!

 

 

1- Como foi pra você fazer a trilogia que se encerrou com esse álbum? Está satisfeito com o resultado?

Foi um processo muito bom e gratificante tanto como músico e como produtor. Aprendi muito nesta viagem que se iniciou com o The Mirror of Deliverance e penso que isso é perceptível na qualidade sonora e mesmo de composição que cada um dos álbuns apresenta. Hoje, depois da trilogia acredito que sou melhor músico e melhor produtor, o que me dá a confiança para fazer ainda melhor nos próximos trabalhos. Estou muito satisfeito com o resultado final, claro que há coisas que poderia ter feito um pouco melhor, coisas que hoje alteraria, como por exemplo adicionar mais guturais em alguns dos temas, mas isto é assim mesmo, é um processo de evolução e principalmente, no caso de A Dream of Poe, da forma que eu vejo os temas em determinado momento da minha vida, na altura não senti necessidade de adicionar mais guturais ou que os temas assim o pedissem, hoje penso o contrário.

 

 

2- O que o músico Miguel descobriu ao final da trilogia? Como foi encarar o mundo real? E qual a sua visão sobre o que a personagem descobriu?

Estranhamente descobri que a personagem segue os meus passos enquanto músico e a forma de compor que eu uso em A Dream of Poe. A personagem primeiro se meteu a aventura, depois destruiu tudo o que conhecia para recomeçar do zero terminando depois por “construir” algo melhor. O meu modo de composição é igual. Eu começo por escrever os riffs que me vão na cabeça, construo a música por completo. Ouço o tema milhares de vezes até me capacitar que o tema está muito bom, depois então deixo o tema repousar, não o ouvindo durante muito tempo. Passado esse tempo volto a pegar no tema novamente, quando o faço acabo por destruir o tema todo e construir algo novo através dos riffs iniciais, tal e qual a personagem! O produto final acaba por ser muitas vezes completamente diferente do que escrevi inicialmente, mas torna-se muito mais completo, perfeito, no fundo torna-se mais A Dream of Poe.

 

 

3- Você era de Portugal e se mudou para a Escócia. Quais as principais diferenças entre os países?

A nível profissional, aqui no Reino Unido há muito mais oportunidades de emprego e de criar uma carreira. Aqui em Edimburgo, na Escócia, onde moro atualmente, é tudo muito mais calmo que Lisboa por exemplo, na minha opinião é um pouco como os Açores, calmo e a natureza está sempre à porta de casa. A comida, apesar de haver coisas interessantes, não é tão boa como a comida portuguesa. O tempo é muito pior, as temperaturas no verão rondam uma média entre 16 e 18 graus, as vezes mais, mas seja como for não é como nos Açores onde no verão ronda sempre os 24/26 graus. Os invernos são frios, não tão frios como eu pensava que seria, o que me desiludiu um pouco pois gosto imenso do inverno!

 

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4- Aqui no Brasil estamos passando por um período cultural complexo, onde muitos artistas estão manifestando opiniões conservadoras extremas, o que não condiz com os conceitos do metal underground. Como está a situação nesse momento delicado na Inglaterra que também passa por um momento tenso?
Neste momento, parece-me que isto é quase uma epidemia! Temos o exemplo agora dos EUA e na Europa começam a surgir cada vez mais movimentos políticos populistas e claramente anti-imigração.  Aqui no Reino Unido as coisas nao se avizinham fáceis para os imigrantes, muitos já optaram por regressar aos seus países de origem, no meu caso o mais provável é daqui a uns 2 anos regressar a Portugal. As cicatrizes do Brexit são extensas, apesar de apenas uma ou duas vezes ter sentido que afinal não sou assim tão bem vindo aqui, começo a pensar se afinal as pessoas não estão a ser falsas nas suas atitudes, nos seus atos para com os imigrantes, se não será tudo uma fachada…

 

5- Quais são os próximos planos para o ADOP? Há planos de fazer algum show planejado ou o projeto foi realmente planejado para os álbuns?
Eu adoro tocar ao vivo, é daquelas sensações únicas, infelizmente aqui na Escócia o Doom Metal praticado por A Dream of Poe não é aquele que o público gosta, o pessoal aqui está muito mais inclinado para Stoner e Sludge Doom, portanto já desisti de organizar e tocar concertos aqui. Tenho ideias e planos para tornar as atuações ao vivo de A Dream of Poe mais teatrais e profissionais, mas há custos elevados, e como a parte financeira está dependente apenas de mim, salvo uma ou outra exceção, não sei se será possível ser realizado em todo o seu esplendor.
Eu tenho estado a contactar vários promotores na Europa para tocar ao vivo mas até agora não tenho tido sorte, o que é uma pena pois os álbuns tiveram todos reviews muito boas. E nem é o caso de haver algum deslumbre da minha parte e pedir um pagamento avultado para tocarmos, aliás todos os concertos que já toquei, incluindo o último em Bucareste na Romênia, perdemos sempre dinheiro e os músicos que me acompanham tiveram de cobrir alguns dos custos. O mesmo se passou na tour de 2011.
Aliás, com A Dream of Poe foi sempre uma luta para conseguir concertos, lembro-me quando ainda estava nos Açores, tive de criar o festival October Loud com um amigo meu para poder finalmente tocar ao vivo
Vou continuar a batalhar até finais de Abril para conseguir concertos para 2017, mas não vou criar muitas expectativas.

 

6- Como foi o processo de composição principalmente em “A Waltz”? Quanto tempo levou desde o início até o final”? Quais foram suas influências?
A composição do álbum “A Waltz for Apophenia” foi interessante e diferente. Grande parte dos temas sofreram não uma, mas duas destruições! A base dos temas foram escritas em 2008 ou 2009, mas eram temas numa vertente completamente diferente de A Dream of Poe por isso nunca foram usados. Em 2014, quando já trabalhava com Kaivan Saraei nas gravações das vozes do An Infinity Emerged, paralelamente reconstruia os temas que escrevi em 2008/2009. Depois de reconstrução feita voltei-me a concentrar exclusivamente no An Infinity Emerge. Assim que dei por terminado o master do An Infinity Emerged voltei a pegar nos outros temas, destruindo novamente algumas partes para depois as voltar a construir. Finalmente em Janeiro de 2016 iniciei as gravações do álbum terminando o master no dia 27 de Agosto. A principal influência foi o meu estado de espírito durante o processo de criação e gravação, claro que há bandas que sigo e que me continuam a servir de inspiração, bandas como The Cure, Therion, Lacrimosa, My Dying Bride, Behemoth dentre muitas outras dos mais variados gêneros!
7- E agora que a trilogia terminou… o que esperar?
Tenho várias ideias a serem concretizadas. Ainda para este ano de 2017 teremos o lançamento do EP 1849, o alinhamento não está definido, mas terá entre 3 a 5 temas. As letras para o 1849 serão todas de poemas de Edgar Allan Poe. É provável que utilize o tema “The Conqueror Worm” lançado na Demo de 2006, este será trabalhado para refletir o som actual de A Dream of Poe. O lançamento será no dia 7 de Outubro!
Provavelmente em 2018 deveremos fechar totalmente a trilogia com o lançamento do livro que explora a trilogia em mais detalhe, a acompanhar o livro irá ser lançado um CD com uma seleção dos melhores temas da trilogia mas em versão acústica!
Depois tenho também planeado um álbum só com músicas escritas por músicos Açorianos, a maior parte deles dentro do metal, uma espécie de tributo aos artistas Açorianos!

 

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8- Conte mais um pouco dos seus projetos além do ADOP.

Não me envolvo em muitos projetos fora A Dream of Poe, ainda assim pontualmente ajudo outras bandas em diferentes aspectos. De mencionar primeiro a minha assistência na produção do novo álbum da banda Açoriana In Peccatum. Fui teclista de In Peccatum de 2006 a 2012, depois com a minha vinda para o UK deixei de poder colaborar ao vivo. Ainda assim estou sempre em contato com a banda pelo que estou-lhes a ajudar na produção e gravação do álbum.

Estou neste momento a trabalhar em 2 temas para o projeto Feathers & Doom. O projeto da responsabilidade do Norueguês Kenneth “Ripper” Olsen (Among Gods, Syrach) consiste em músicas escritas por vários músicos convidados onde depois Kenneth gravará as vozes.

Estou também a gravar teclados para o novo projecto DeadCase do meu grande amigo e conterrâneo Tito Bettencourt.

 

9- Já conheceu o Brasil? Tem muitos contatos aqui? Qual sua ideia sobre o Brasil que é tão próximo e tão distante ao mesmo tempo de Portugal?

Infelizmente ainda nao tive o prazer de visitar o Brasil, continua nos meus planos um dia visitar o Brasil, quem sabe se para um show! Não tenho muitos contatos por ai, mas espero que isso se altere no futuro.

Acho que não estamos assim tão distantes, hoje em dia com toda a tecnologia existente acabamos por estar ligados a todos os países, e acredito que, continuando a haver mente aberta para se aceitar todas as nossas diferenças, assimilando o que de melhor há em cada cultura, estaremos todos, não só Portugal e Brasil, cada vez mais próximos com a esperança de um mundo cada vez mais justo.

 

10- Obrigada pela atenção e palavras. Alguma consideração final ou recado para os fãs brasileiros?
Agradeço esta fantástica oportunidade para falar sobre A Dream of Poe e os projetos para o futuro. Espero que tenham gostado e que a entrevista tenha sido interessante de ler!
Até um dia, quem sabe, no Brasil!