Entrevista com John Garcia: Areia no sangue

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Créditos: Divulgação

Entrevista por: Lara Noel e Billy Goate
Tradução por: Elyson Gums

 

October Doom Magazine: Vamos falar sobre o novo álbum, The Coyote Who Speaks in Tongues. Ele mexeu bastante comigo. Sinto como se estivesse em uma sala com vocês, ouvindo enquanto vocês o tocam. É diferente de tudo o que você fez antes. É muito sensível. 

John Garcia: Obrigado pelos elogios. Esse disco não é pra todo mundo. Ouvi algumas críticas pelas versões diferentes de “Gardenia” e “Green Machine” (originais do Kyuss, antiga banda de John). Não é pra todo mundo, mas Ehren Groban e eu gostamos de criá-lo. Ficamos maravilhados. Metade da diversão foi levar essas músicas de um ponto para seu completo oposto. Essa foi a parte divertida, mas deu trabalho.

Muitos jornalistas me perguntaram: “Bom, por que você está fazendo isso, é só porque você está ficando velho?”. Não, não é sobre ficar velho, é mais sobre um desafio. Eu só quis fazer isso. Não tem nenhuma resposta longa, “Jim Morrinesca”, superfilosófica. Todas as pequenas e grandes imperfeições – a respiração, as cordas batendo no braço da guitarra – não é perfeito de propósito. Esse foi o nosso compromisso. Quisemos fazer algo, como você disse, na nossa sala. Foi o que fizemos, sentamos numa sala em Palm Springs (Califórnia, EUA) e fizemos as músicas. Depois, voltando de uns shows, bebemos no voo de volta da Alemanha e falamos: “Por que a gente não grava isso?”. Foi totalmente inesperado, e foi isso o que fizemos.

 

OD: Gosto disso. Como artista, você tem que se esforçar. Mal consigo imaginar o quanto deve ter sido difícil rearranjar as músicas do Kyuss para uma versão acústica. É inspirador ouví-las tocadas desse jeito. Tenho que dizer que chorei ao ouvir “Gardenia” na versão acústica.

JG: É muito legal ouvir isso, muito obrigado, de verdade. Brant Bjork (antigo baterista do Kyuss) escreveu “Green Machine” e “Gardenia”. Scott (Reeder) e Josh (Homme – respectivamente ex-baixista e ex-guitarrista também do Kyuss) escreveram “Space Cadet”. Só aconteceu de eu tocar na banda e cantar as versões originais. Alguns jornalistas vão perguntar “Bom, então por que você fez isso?”. Foi porque eu quis revisitar algumas dessas músicas. Acho que Ehren teve bastante respeito pelas músicas também.

 

OD: Como vocês escolheram as faixas?

JG: Basicamente pelo método tentativa e erro. Algumas funcionaram, outras não. Tivemos 17 ou 19 músicas que planejamos fazer. Nem todas ficaram boas, mas estamos acostumados. Algumas canções encaixam em versões acústicas e outras simplesmente não. Foi basicamente sentar, como falamos anteriormente, ir pelas emoções e lapidando as faixas. Planejamos algumas músicas do Hermano (outra banda de John). Tentamos, mas não ficamos satisfeitos. Ehren e eu também escrevemos material novo para nosso novo projeto: “Kylie,” “Give me 250ml”, “The Hollingsworth Session” e algumas outras. Nesse tempo, foram quatro músicas do Kyuss, algumas live tracks e outras que foram escritas especificamente para o futuro álbum, e esse acústico. Então, essencialmente, fomos tentando, errando e nos divertindo. Foi uma parte interessante – escolher as músicas, perceber como elas ficam no formato acústico, e como algumas não ficam. Coisa simples. Sem respostas longas e filosóficas, desculpa. Foi só trabalho e diversão mesmo.

 

OD: Esse álbum é bastante pessoal, não o que muita gente estava esperando, mas acho que fala por si só muito bem. No próximo, você vai voltar aos instrumentos elétricos. Pode nos falar mais?

JG: Ehren e eu temos quase tudo pronto e esperamos que seja lançado no fim desse ano ou início do próximo. Queria ter tudo pronto no ano passado, mas entre trabalho, família, crianças, isso e aquilo, e os compromissos de todo mundo, foi difícil. Focamos nessa gravação elétrica e demos um passo de cada vez.

Eu gosto de tocar, de compor. Todo o meu tempo livre é dedicado a isso. É difícil quando você trabalha em tempo integral e tem dois filhos. Amo minha família mais do que qualquer coisa no mundo. Qualquer um que me conheça sabe que eu sou um cara família. É difícil encontrar tempo de ir pro estúdio e gravar tudo.

Vai ter algumas músicas novas, como “Kylie” e “Give me 250ml” em versões normal e acústica. Não teremos nada do Kyuss, vai ser tudo original e 99,99% delas foram escritas por Ehren, a banda e eu. Eu acho que vai ser mais pesado, rápido, agressivo e melhor do que o nosso primeiro. Estou ansioso.

Album

 

 OD: Entre família e trabalhos formais, é impressionante que consiga produzir tanto. Não é fácil, especialmente quando se está envelhecendo. As pessoas perguntam o que você está fazendo enquanto artista e o quanto isso tem a ver com envelhecer. Penso que não tem nada a ver com idade, é só uma progressão natural de si mesmo.

JG: Concordo totalmente e você está certo: é extraordinário fazer o que fazemos. Manter um emprego fixo, ser pai, marido e ainda por cima tentar gravar e conseguir equilibrar as coisas. Felizmente tudo se paga. Tenho carne o suficiente no freezer. Estou feliz com o que produzi com o Ehren. Não tento ser nenhum Jim Morrison, de jeito nenhum. Só vivo um dia de cada vez.

A felicidade dos meus filhos é muito importante pra mim, assim como a educação deles, a felicidade da minha esposa e o nosso bem-estar em geral. A vida em família em si é um muito bem-vindo “segundo trabalho” que amo fazer. Fazer todo mundo feliz – inclusive a mim mesmo – é difícil, e é um balanço de forças notável que você tem que administrar. Às vezes eu penso demais nessas coisas, quando na verdade é simples: você só tem que ser um bom pai, bom marido, e se manter feliz. Não é engenharia de foguetes, é só equilíbrio. 

 

OD: E como você cria esse equilíbrio?

JG: É trabalho duro, mas dá-se um jeito. É rotina. Você trabalha, quer uma carreira… Mas também quer ser um bom pai, e isso não se aprende na escola. Ou você é um vagabundo de merda e não tem esse estalo de ir trabalhar pra prover a família, ou você tem. É assim com paternidade também, ou você se esforça pra ser um bom pai ou não. Felizmente, me preocupo com minha família, meus filhos, com sua educação. Eu trabalho praticamente desde os sete anos de idade. Trabalho pra viver e é isso aí, não sou músico em tempo integral. Gostaria de ser, mas não sou. Eu ajudo a dirigir um hospital veterinário em Palm Springs, junto com a minha esposa, e amamos nosso trabalho.

Eu acho que é só sobre equilibrar tudo e se esforçar pra ter uma boa vida, prosperar. Não penso demais nisso. É quem somos – não só eu, minha esposa também. A gente tá aí, trabalhando duro. É necessidade. Todo mundo é diferente, as crianças aprendem diferentemente. Tem mães e pais que dizem “Bom, meu filho fez isso em tal idade”, e daí por diante. Isso é bom – cada um tem suas lutas e nós não somos diferentes. Eu sou um cara normal com uma carreira extraordinária – uma por trabalhar com animais, e a segunda por estar aqui do outro lado do telefone falando sobre algo que ajudei a criar. Sou bastante sortudo, pra ser honesto.

 

OD: É bem legal ver o quanto você se importa com sua família. Quando está em turnê, o que você faz e como isso afeta a vida da sua esposa e filhos?

JG: É difícil. Quando eu saio, Wendy é a verdadeira heroína aqui. É ela que fica nos bastidores garantindo que tudo dê certo. Quando eu saio, ela tem que fazer o almoço, levar e buscar as crianças da escola, trabalhar no hospital, depois voltar pra casa, fazer o jantar, dar banho nas crianças e fazer o dever. O trabalho dela é difícil, o meu é fácil. É por causa dela, da minha família, que posso viajar, então tem que fazer sentido. As finanças têm que fazer sentido.  Emocionalmente e fisicamente, tem que fazer sentido esse velho ir numa van em turnê pela Europa por duas ou três semanas. Sentimos saudades, mas ela lida com isso de um jeito espetacular. Ela é durona, uma verdadeira heroína. Eu não gostaria de encontrá-la em um beco escuro, porque ela realmente é durona.

 

 

OD: Dizem que por trás de todo grande homem existe uma grande mulher.

JG: Isso é 100% verdade. No meu caso, sem dúvidas é ela. Eu sou sortudo por tê-la comigo, assim como as crianças. Meus filhos não ficam nem um pouco impressionados com o que eu faço, o que é tranquilo. Wendy e eu nunca enfiamos nada goela abaixo deles quando diz respeito à música, esportes ou coisas do tipo. Apoiamos tudo o que eles gostarem. Se Madison quiser ouvir Taylor Swift, eu aumento o volume. Se o Marshall quiser correr ao redor da quadra 150 vezes porque quer emagrecer, então ele vai correr 150 vezes ao redor da quadra. Ter filhos é divertido. Tentamos aproveitar a vida ao máximo, porque é isso que você deve fazer.

 

OD: Você tem que viver todos os dias como se fosse o último, porque não há certezas na vida. É nisso que acredito.

John Garcia: Eu também. É bastante sorte falar com vocês sobre isso. É um prazer, uma honra. Nunca fui assim, mas estou agradecido por ter a oportunidade de falar sobre algo que criei com esse acústico e, novamente, tenho que dar crédito a quem merece. Se puder, deixe os leitores e audiência conhecerem Ehren Groban, porque ele é uma força a ser reconhecida. Um grande compositor e músico. Ele é um curinga, e é por isso que gosto tanto dele. É um grande cara, muito talentoso. Meio que um diamante não lapidado que encontramos aqui no deserto.

 

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Como se conheceram?

JG: Fui apresentado a ele por um dos meus produtores, Harper Hug. Sentamos num barzinho chamado Melvyn’s, em Palm Springs, tomamos uma cerveja e um Martini. Falei que estava procurando por um guitarrista e o resto é história. Ele é um cara muito gentil que faria tudo por qualquer um, por mim, por minha família. Depois dessa entrevista, se eu ligar pra ele e falar “Tô precisando de ajuda”, ele vai aparecer em literalmente meia hora.

Esse é o tipo de pessoa que ele é. Ele quer trabalhar, ser um músico, viajar. É um cara local, o que eu estava buscando, e não alguém da Flórida ou de Nova York. Queria alguém que pudesse encontrar depois de sair do trabalho. A gente senta no lugar onde ensaiamos aqui em Palm Springs, sentamos, bebemos uma vodca, botamos pra foder por umas duas horas e aí começamos a escrever as músicas. Novamente, eu não acho que ele é creditado o suficiente por tudo o que ele faz pro mim e por toda a banda.

 

OD: The Coyote Who Speaks in Tongues é o primeiro trabalho que fizeram juntos?

JG: Trabalhamos juntos por um tempo. Ele ajudou a fazer o disco elétrico e foi aí o começo da amizade. Nesse, é basicamente nós dois trabalhando juntos – um produto direto desse relacionamento. Espero que nosso processo de composição continue a melhorar, agora e no futuro.

 

OD: É evidente o quanto de você está nesse álbum. Dá pra sentir essa sua energia completamente. Como disse antes, não é pra todo mundo, nem é perfeito, mas é o que o torna especial.

JG: Isso mesmo. Não é perfeito de propósito. Poderia ter sentado no estúdio por mais seis meses até deixar tudo polido, mas não quis fazer isso. Não tinha tempo nem dinheiro, então fomos lá e, bum, soltamos o quanto antes. Eu amo Coyotes… por isso.

 

OD: É um play reconfortante. A desconstrução acústica das faixas que estamos acostumados a ouvir com instrumentos elétricos é fascinante e muito bonita. Vocês queriam que elas originalmente soassem desse jeito?

JG: Não exatamente. Não sabia o que “Green Machine” ia virar e nem que “Gardenia” terminaria desse jeito; nem ideia de que “Kylie” ficaria assim também. Essa é a beleza de fazer música – coisas que você quer fazer num projeto nem sempre saem do jeito que você quer, e às vezes o que você não gostou tanto acaba ficando melhor do que o esperado. É disso que eu gosto no fato de entrar no estúdio e ter a luz vermelha de gravação acesa. Como minha música vai soar?

Usamos três violões, então fomos pelo simples: um com cordas de aço, outro de nylon, e um de doze cordas. Greg Saenz fez algumas percussões, Mike Pygmie tocou baixo, e (ainda tem) um tecladista incrível, Ronnie King – um cara do deserto e uma lenda do deserto, mesmo. Todo mundo quis participar, estar envolvido. Não foi como falar “Ei, preciso de um favor, vem aqui e faz isso”. Sorte ter uma equipe tão boa, eles me surpreendem.

Respondendo à sua pergunta, tínhamos uma ideia. E ela era: deixar simples e minimizar tudo – inclusive eu mesmo. Não precisa encher de tracks com a minha voz, vai estragar. Deixe a música respirar. Deixa o solo soar por bastante tempo… Era pra parar aqui, mas deixa tocar mais um pouco. Deixe a música respirar e falar por si só.

Era isso, e Ehren foi parte dessa visão. Tivemos sorte de ter Steve Feldman na mesa de som e Robbie Waldman como produtor executivo. Foi incrível fazer isso. Verão passado, meus filhos estavam aqui, tinha uma piscina bonita e uma jacuzzi no estúdio. Robbie tinha um lugar incrível.

Acredite ou não, o estúdio está fechado desde então, esse foi o último disco gravado lá. Chris Goss, da banda Masters of Reality e hoje um dos produtores do The Cult, abriu o estúdio. Fui a primeira pessoa a cantar lá, e agora fui a última. Era um lugar incrível, e agora está para alugar. É até emocionante pra mim, porque eu amava aquele lugar. Ian Astbury (vocalista do The Cult) fez “Spirit Like Speed” ali, e bandas como The Flys, Queens of the Stone Age, Fu Manchu e várias outras gravaram bastante lá. Foi muito legal ter feito parte do Unit-A Recording Studio em Palm Springs.

 

OD: Incrível. Só de ouvir isso torna esse projeto ainda mais especial.

JG: Pois é. Falei com o Robbie quando ele veio até a clínica com o gato dele outro dia, foi uma surpresa pra mim. Se eu tivesse dinheiro o bastante, abriria o estúdio de novo. É uma pena, mas vida que segue. Provavelmente vamos gravar em outro estúdio no deserto. Ainda temos que encontrar o lugar, mas estamos trabalhando nisso.

 

OD: Alguma turnê planejada antes de terminarem de gravar o novo disco?

JG: Ehren e eu vamos para a Europa em março, fazendo shows acústicos durante algumas semanas. Em abril, a banda toda vai pra lá para testarmos o novo material e nos habituarmos. Depois de voltarmos, vamos pro estúdio e terminamos de gravar. Em junho, o Slo Burn (outra banda de John) vai tocar, mas nada muito grande. Só três turnês pra esse ano. O estúdio no verão, mas além disso, só aproveitar a vida.