Entrevista com Mourners Lament: Tradição chilena

SHARE
Crédito: Divulgação

Por Rafael Sade

 

O Chile sempre nos surpreende apresentando e exportando bandas de altíssimo nível, e alguns exemplos delas são Uaral, Poema Arcanvs e Mar de Grises, entre muitas outras. Mourners Lament, que acaba de soltar o seu full-length We All Be Given, é uma delas e têm tudo o que precisa pra ser mais um nome marcante. Conversamos com o vocalista Cristian Ibañez que nos conta sobre a trajetória do grupo, este novo lançamento e alguns planos para o futuro.
Rafael Sade –  Conte-nos como surgiu a Mourners Lament.
Cristian Ibañez – Antes de começar, gostaria de agradecer o interesse e o apoio à nossa banda e também enviar saudações aos nossos amigos brasileiros que por sinal são muitos! Mourners Lament nasceu no início de 2004, quando tivemos a ideia de compor música inspirados por bandas que ouvíamos no momento e que marcou profundamente nosso caráter como grupo. Nomes como My Dying Bride, Anathema e Paradise Lost foram fundamentais para a nossa identidade. Éramos muito jovens na época e a intenção era nos divertir tocando ao vivo, então tivemos a esperança de registrar algo em estúdio, no momento em que não haviam muitas bandas no Chile que estavam tocando doom metal. Foi muito desafiadora a nossa proposta, pois a cena em nosso país naquela época tinha uma forte tendência ao death metal e black metal.

 

R.S: A banda tem 13 anos de existência. Quais são as principais dificuldades em ser uma banda chilena tocando metal, principalmente o death e o doom metal?Cristian Ibañez: Na verdade as dificuldades são as mesmas que qualquer banda no Chile ou em outro lugar no mundo pode ter, especialmente no aspecto monetário para financiar gravações e turnês. Infelizmente para subir e permanecer ao longo dos anos é necessário retirar o dinheiro dos bolsos dos próprios músicos.

Crédito: Divulgação

 

R.S: Quais as maiores influências no som da Mourners Lament?
Cristian Ibañez: Chegamos agora à maturidade para não depender do som de outra banda, sendo a nossa principal fonte de inspiração nossas próprias experiências pessoais, o nosso humor e nossa fluência ao compor. Sentir-se completo em nossa própria influência e ser livre para tomar o nosso som para atmosferas diferentes que fluem naturalmente por nossos instrumentos. Agora, o resultado de tudo isso pode ser comparado às nossas raízes e não podemos negar que Paradise Lost, Anathema e My Dying Bride são as bandas que formaram a nossa identidade e personalidade desde o seu início.

 

R.S: O Chile é muito conhecido por suas bandas de alto nível. Alguma dessas também lhe inspiraram?
Cristian Ibañez: Não. Embora existiam no Chile e ainda existam vários grupos de nível muito elevado, o nosso tipo de som e como nós o tocamos é muito distante dos outros. Cada um tem a sua própria identidade e penso que as influências de cada um deles vêm de muitas fontes diferentes umas das outras. Sei que bandas em nosso país que tocam doom metal com influências death se assemelham entre si. No momento atual, o doom metal tradicional trouxe uma ninhada de novas bandas que tem certas semelhanças entre si, isto porque as suas influências ao compor são baseadas em bandas cult como Candlemass, Pentagram, Black Sabbath etc.

 

R.S: Após a demo de estreia em 2004 vocês lançaram o excelente EP Unbroken Solemnity em 2008. Como foi a recepção deste trabalho no Chile e mundialmente?
Cristian Ibañez: Unbroken… é a nossa “pedra no sapato”, como dizemos aqui no Chile, já que há uma mistura de sentimentos. Na minha opinião, este é um excelente registro que, infelizmente, não teve o alcance que poderia ter tido, principalmente por causa de más decisões tomadas como uma banda, uma vez que saiu como EP na Europa pelo selo Descent Production. Tivemos acesso a cópias deste trabalho, mas aqui no Chile foi muito difícil de encontrar. Acho que a mesma coisa aconteceu com outros países da América do Sul, nem tanto para a Europa, sendo que o trabalho foi bem recebido no mundo underground. Agora pensando sobre a escassez deste registro, decidimos reeditá-lo e ele estará disponível para compra diretamente com a banda, incluindo um adicional da nossa demo de 2004. Esperamos que em breve também esteja disponível em formato de edição Tape.

 

R.S: Vocês deram uma parada em 2009 e só retomaram atividades em 2013. Este período serviu para trazer mais inspiração e novas músicas?
Cristian Ibañez: Este período de ausência não era um descanso premeditado. Como tivemos muitos problemas com más decisões enquanto conjunto, houve uma ruptura que trouxe substituição momentânea de membros, acabando por determinar o fim da banda em 2009. A partir de 2013, retornamos à música com nossa formação quase original e nos voltamos a composições antigas que estavam inacabadas antes de gravarmos o Unbroken Solemnity. Obviamente após todos estes anos amadurecemos musicalmente e isso nos permitiu concluir essas músicas com mais fluidez, além de compor novas canções incluídas em nosso novo álbum, o We All Be Given.
R.S: Em novembro de 2016 foi lançado o tão aguardado We All Be Given. Como está sendo a recepção do disco?
Cristian Ibañez: Fantástica. Este é apenas o começo para nós como uma banda e para este nosso álbum. Para impedir que aconteçam os mesmos erros do passado e assim evitar que ele sofra de escassez na América do Sul, chegamos a um acordo com um selo do Chile, o Canometal Records, para lançar uma edição limitada. O We All Be Given, por sinal, foi muito bem recebido em nosso país. Temos tido performances fantásticas nas quais muitas pessoas que não nos conheciam, ou pessoas que gostam muito deste estilo, admiraram nosso trabalho e acabamos ganhando novos fãs. Vemos também o prazer dos nossos fãs que esperaram pacientemente por essa nova gravação e recebemos críticas muito boas e excelentes comentários.

 

R.S: O Chile é um país que costuma revelar e exportar bandas para grandes turnês europeias. Vocês têm planos em divulgar We All Be Given na Europa?
Cristian Ibañez: Quando decidimos voltar como uma banda, olhamos como primeiro objetivo a gravação do nosso primeiro álbum e ele surpreendentemente abriu novas portas para nós, com grandes desafios a curto e médio prazo. Assinamos um contrato com o prestigiado selo holandês Hammerheart Records para o lançamento em abril deste ano do We All Be Given para a Europa e para o mundo. Certamente isso vai nos ajudar a alcançar um maior número de pessoas que podem obter o nosso disco e prestar uma melhor atenção a esta banda de doom/death metal chilena. É provável que agendemos algumas apresentações para fora do país, principalmente na Europa em 2018, uma vez que a promoção e distribuição pela Hammerheart Records deve demorar um pouco mais.

 

Para saber mais:
Página oficial:  www.facebook.com/mournerslament.official
http://www.hammerheart.com/
http://www.hammerheart.com/news/2016_10_19_mournerslament.html
www.canometal.cl