Entrevista com Panzer: uma das mais antigas bandas brasileiras em atividade em novo álbum, Resistance

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Crédito: Carla Graseffi

Por: Matheus Jacques

 

A Panzer é uma das mais antigas bandas brasileiras em atividade, provavelmente a pioneira a aliar o Thrash Metal com elementos de Stoner. E foi com seu baterista Edson Graseffi que troquei uma ideia no inicio do ano a respeito de carreira, influências e seu mais recente trabalho, o ótimo “Resistance”!

Panzer: E ai!
Matheus (October Doom): Prazer em falar contigo. Primeiro eu gostaria, se fosse possível, que você se apresentasse e falasse um pouco da tua história com a Panzer e da própria banda em si.

Panzer: Valeu Matheus, pelo espaço dado e respeito ao nosso trabalho e história. Cara, minha história praticamente se mistura com a do Panzer, musicalmente falando e acredito que a do André também. Éramos bem moleques quando a banda começou e tudo que aprendemos com música realmente foi dentro do Panzer. O Panzer nasceu nos anos 90, um sonho vindo de 2 irmãos, eu e meu irmão Paulo. Logo em seguida, depois de uma troca de formação chegamos ao André. Desde aquela época caminhamos “fora da linha” que todas as bandas da cena Metal estavam fazendo. Acho que nossa história dá pra resumir basicamente nisso, nunca seguimos a moda, nunca fomos a banda do momento e isso nos trouxe respeito dentro do cenário. Ainda continuamos aqui 25 anos depois, fazendo o som que acreditamos. São duas décadas e meia de muita batalha e força   de vontade para manter a banda viva e produzindo.

OD: Oficialmente a banda foi formada em 1991, me corrija se eu estiver errado. Apenas em 1999 foi lançado o álbum de estreia de vocês, batizado de “Inside”. O que esses oito anos representaram para vocês em questão de maturação da sonoridade, preparação, “corres” e tudo o mais?
Panzer: Na verdade o Inside foi lançado em 1998. Hoje talvez as pessoas achem estranho uma banda começar e só lançar um CD 8 anos depois. Mas na época para se chegar ao lançamento de um CD era uma missão quase que impossível. Ainda mais conseguir um selo que acreditasse no seu trabalho e um estúdio que entendesse a sua proposta. Eu vejo os primeiros 8 anos iniciais como anos de grande ralação e amadurecimento  dentro do cenário, fazendo as coisas da forma que nos era possível. Os 5 primeiros anos foram extremamente undeground, tocando em muitos buracos e roubadas do interior de São Paulo. Quando entramos de cabeça na cena da capital em 1996, começamos outra batalha para sermos reconhecidos aqui. Tudo foi construído com muitos shows em pequenos pubs e bares, muitas madrugadas tocando em palcos pequenos e carregando nosso equipamento. Trilhamos o caminho de pedra que uma banda verdadeira realmente deve trilhar para se tornar madura.

OD: Houve um hiato considerável na banda, compreendo um período entre 2002 e 2012. O que esse tempo representou:  um período “sabático”, uma reestruturação já pensando em um retorno retumbante e mais maduro, uma dúvida total sobre o caminho que vinham seguindo…?
P: Esse hiato deu-se simplesmente porque na época, começamos a divergir demais uns com os outros. A forma mais saudável pra se resolver isso, era dando uma parada. Foi o que fizemos e só voltamos a nos reunir quando tivemos certeza de que era a coisa certa a ser feita e que não iríamos entrar em conflitos novamente…a banda existia, mas não tocava.

OD: A Panzer estava ali entre os grandes pioneiros em se tratando de adicionar elementos de Stoner Metal, toques um tanto mais arrastado e timbradões, à sonoridade do Thrash Metal da época. De onde convergiu essa inspiração de adicionar umas coisas um tanto “Sabbathicas” na pauleira Thrash Metal que vocês destilavam?
P: Nós fomos os primeiros a fazer isso aqui no Brasil. Nunca ninguém havia pensado ou tentado essa mistura. Começamos a fazer isso porque sempre amamos o Black Sabbath, não existia o termo Stoner, não existia essa cena toda de hoje. Enquanto a gente compunha, sempre falávamos: “vamos por uma parte Black Sabbath aqui”…Então quando começamos a fazer shows muita gente achou essa mistura estranha. Lembro de um cara, no Black Jack, que era um famoso bar de SP, saindo todo indignado porque tocávamos algumas músicas do Black Sabbath em nosso set, o que era algo “proibido” para uma banda dita Thrash Metal. Na verdade nós nunca fomos uma banda de Thrash, sempre fizemos nosso som influenciado por tudo que estava  ao nosso redor sem pensar em rótulos e acabamos criando um estilo próprio que hoje influencia algumas bandas dentro da cena brasileira.

OD: Nessa parte da veia mais “arrastada” e associada ao Stoner (que, confesso eu, é realmente a que mais agarra meu lado “fã”, rs) quais foram as principais referências em se tratando de bandas nas quais vocês buscaram inspiração para incrementar seu som?
P: Black Sabbath, Black Sabbath, Black Sabbath…kkk. Também sempre gostamos do Corrosion of Conformity,  Pentagram. Particularmente falando como baterista, o Bill Ward sempre foi um dos bateras que me “guiou”, ele é um gênio e quando era jovem era selvagem tocando.

Créditos: Carla Graseffi

OD: No atual momento do jogo, vocês conseguiram alcançar aquele ponto de fazer da Panzer o principal corre de vocês, o grande gerador de diversão e também de renda, ou todos associam outros trampos paralelos à banda pra seguir adiante?
P: Seria perfeito se pudéssemos apenas viver da música do Panzer, mas isso no nosso país é praticamente impossível. Mas de certa forma, todos nós trabalhamos com coisas ligadas ou à música ou ao Rock and Roll Life style. O Edson e o Sérgio são tatuadores e eu trabalho dando aulas de guitarra e com comércio de instrumentos musicais… E todos temos projetos musicais paralelos ao Panzer e isso é muito importante pois faz com que a banda mantenha sua essência, sem pirações. As  pirações  vão para os projetos paralelos.. Viver do Prazer é um sonho, mas posso te garantir que vivemos o Panzer, de maneira intensa e apaixonada…

OD: “Resistance”, o álbum mais recente da Panzer (lançado no ano passado), marca a estreia do Sérgio Ogres no vocal. Poderia dar uma luz sobre como o cara chegou até vocês e como se desenrolou  essa inserção do cara na Panzer? Ele é realmente a  cara da fase da atual da banda, tudo o que vocês esperavam pra fechar o time da melhor forma possível?
P: O Sérgio foi um verdadeiro achado…kkkk. Fomos a um show da banda que ele tem, que faz tributo ao Pantera, o Unscarred e gostamos demais do que vimos. Eu e o Edson entramos em contato com ele e o chamamos para fazer um som conosco.Ele topou mesmo sem saber o que viria… E aí a coisa rolou…. ele se integrou com perfeição à banda e pensa muito parecido com a gente. O disco estava sendo finalizado e demos carta branca pra ele. E ele apareceu com vocais matadores…é o cara certo para o posto. Estamos muito felizes com ele e hoje ele é realmente o vocalista do Panzer, totalmente integrado e engajado com a banda.

OD: Sobre o novo álbum.  Ele foi positivamente recebido e aclamado por várias publicações do gênero, finca de forma bem veemente uma bandeira no território da música pesada brasileira para uma banda que é nome carimbado e icônico por aqui. Me fala um pouco da concepção desse álbum e qual o feedback de vocês em relação a ele.
P: Quando começamos a trabalhar em Resistance, tínhamos em mente retomar a sonoridade do Panzer do disco Strongest. Compusemos de forma livre, mas sempre buscando esse caminho e foi mais fácil de fazer…pois é como trabalhamos. O Sérgio, sacou a proposta e logo colocou suas partes de forma perfeita, terminando de montar o quebra cabeças de cada música.  Gostamos muito do resultado, é um disco orgânico, sem firulas , pesado e com uma veia mais Rock que ficou de lado em Honor, que é bem mais brutal. O disco foi e está sendo muito elogiado e abrindo muitas portas…estamos muito contentes e acho que Resistance tem muito a dar ainda. Nós deixamos tudo soar natural nesse disco, a bateria por exemplo não tem samples, você ouve realmente o sons dos tambores. Tudo soa muito orgânico e era o que queríamos. Acredito que achamos um caminho de gravação, olhando para o passado e os processos de gravação usados antigamente.

OD: “Resistance” tem uma faixa em Espanhol, no caso a versão da sétima faixa “Attitude” batizada de “Actitud”. Inclusive ganhou um videoclipe muito bacana. Acho que é a única faixa de vocês no idioma espanhol até o momento, tem uma história mais complexa por trás dessa escolha?
P: Na verdade fizemos essa música em Espanhol, por que estamos fazendo shows por países que falam essa língua. Foi a maneira que achamos de nos aproximar ainda mais das pessoas que tem dado tanto valor ao nosso trabalho nestes países que tocamos  e tocaremos novamente.

OD: Divulgação do novo álbum, tour, “corres” fora do Brasil… quais são os frutos em se tratando de rodar estrada afora que “Resistance” vêm gerando, e quais são os próximos movimentos da Panzer tanto dentro quanto fora do Brasil?
P: No Brasil estamos começando a montar a rota de shows, mas a crise econômica atrapalhou bastante todas as bandas e quem produz eventos. Eu vejo que estamos vivendo um momento que só será compreendido daqui um tempo. As coisas estão mudando de mão e acredito que haverá uma renovação de público, mas ainda é cedo para falar disso.  Quanto a shows fora do Brasil, faremos nossa primeira tour por parte da Europa essa ano e voltaremos para alguns países que já tocamos na América do Sul.

OD: Valeu pela conversa! Esse espaço fica reservado para qualquer mensagem final que vocês desejem deixar!
P: Agradeço a todos que nos apoiam e nos ajudam a manter banda ativa por todos estes anos!