Entrevista com Peso Morto: Peso e Agressividade na Capital Federal

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Crédito: Divulgação

Por: Raphael Arízio

Os thrashers do Peso Morto vêm se destacando com sua mescla de diversos elementos dentro do metal. O grupo não se prende a rótulos e traz uma musicalidade ousada mesclando sons tradicionais com a nova escola metálica. Além da música, alguns de seus integrantes estão envolvidos na cena underground de Brasília com projetos bem interessantes em prol da música pesada. Vamos saber do guitarrista Alu Pedrotti mais alguns detalhes sobre a carreira da banda e seus projetos.

Raphael Arízio: A banda lançou um EP autointitulado com quatro músicas. Por que decidiram estrear com assim em vez de um disco completo? Como tem sido a repercussão desse lançamento?

Alu Pedrotti: Bom, a questão do EP na verdade veio como uma necessidade. Já estávamos desenvolvendo a ideia de gravação do disco quando pintou uma oportunidade para participarmos de um evento aqui em Brasília, mas para isso era necessário que tivéssemos material físico. Aí resolvemos, para agilizar o processo, fazer o EP com apenas quatro músicas que já estavam prontas e lançar esse material como uma espécie de prévia do full length, que está chegando. Além desse motivo mais prático, também tem a questão de divulgação do material, que em um full muitas vezes se perde um pouco. Hoje em dia com as facilidades de divulgação achamos importante valorizar mais cada trabalho de forma independente. Antes, devido à escassez de oportunidades e dificuldades de divulgação, quando havia o lançamento um CD, tinha-se basicamente o mesmo trabalho para divulgar uma música ou um CD inteiro, e com isso muitas vezes alguns trabalhos se perdiam no processo, no sentido em que um CD com 10 músicas acabava tendo apenas duas ou três mais divulgadas, e as outras acabavam meio que de escanteio. Hoje, com a internet principalmente, as oportunidades de divulgação são imensas e é bem mais fácil você conseguir divulgar um material sério. Rapidamente ele se espalha pela rede e as oportunidades de divulgação com as rádios web e as revistas digitais são mais acessíveis do que antes. Com isso, acreditamos que é válido trabalhar de forma mais independente cada música, divulgando de forma mais constante o trabalho que a banda desenvolve.

 

 

Raphael Arízio: O Peso Morto lançou um clipe para a música “Corpo Fechado”. Como tem sido a resposta para este vídeo? Como foi feita a elaboração do clipe? A banda participou de todas as etapas até o seu lançamento?

Alu Pedrotti: Sim. Fizemos esse clipe em parceria com o Tiago Kuurtz, da Loud Factory (SP). A banda participou da parte de direção juntamente com o Tiago, que tomou conta da parte da produção e edição. Ficamos alguns meses trocando figurinhas sobre como seria a ideia. O nome da música é uma expressão retirada de cultos afro-brasileiros e sua letra dispara frases contra o ego e a negatividade. Nós queríamos que o clipe tivesse imagens inspiradas na cultura pagã e no universo visual do culto à sacralidade da natureza, e acabamos chegando nesse resultado. A aceitação tem sido muito bacana. Ficamos muito contentes com o resultado final. As pessoas gostaram e nós também.

 

Raphael Arízio: A banda participou do webshow valendo no Orbis tocando duas músicas ao vivo. Qual a opinião de vocês a respeito da internet de hoje em dia em prol da música? O que acha que ela pode trazer de bom para o grupo?

Alu Pedrotti: Como falei antes, a internet é sensacional. Ela é uma das maiores responsáveis pela facilitação do acesso aos veículos de divulgação. Tanto por facilitar o acesso aos veículos, como também por facilitar o surgimento de tais veículos alternativos, que são especializados em certos segmentos. Antigamente para você conseguir uma entrevista em uma rádio, uma matéria publicada em revistas especializadas, ou até mesmo ter um clipe seu divulgado nos ditos veículos tradicionais, era uma verdadeira batalha. Os veículos eram poucos e extremamente seletivos. Com a internet, tudo isso mudou. Várias pessoas começaram a desenvolver seus blogs, que viraram revistas, ou rádios, e 100% voltado para seu público específico. Fora isso, a aproximação das pessoas se tornou mais simples. As bandas conseguem divulgar seu material para outros estados de forma prática e simples. Programas como o Valendo no Orbis são frutos dessa facilidade que a internet nos proporciona, e achamos que isso só tem a adicionar ao universo underground.

Crédito: Divulgação

Raphael Arízio: Alguns dos integrantes do Peso Morto estão envolvidos na produção do DVD Território Metálico, no qual são divulgadas bandas da região central do país com músicas ao vivo. Como surgiu a ideia deste lançamento? Pretendem lançar um segundo volume? E como foi a escolha dos participantes?

Alu Pedrotti: Sim. Eu sou guitarrista de dois grupos aqui em Brasília: Peso Morto e MoretoolsNo início de 2010, Riti Santiago, baterista da Moretools, me chamou para desenvolvermos a ideia de um DVD, que inicialmente seria para a banda Moretools. Porém, com o passar do tempo, a evolução das ideias nos levaram à conclusão de que deveríamos mudar a ideia inicial e fazer um DVD com bandas de expressão da cidade. Afinal, tínhamos conhecimento das dificuldades e dos custos de se produzir um material de alta qualidade, e se era possível agregar mais nomes sérios com trabalhos dignos, por que não? Desenvolvemos um projeto e apresentamos para o FAC (Fundo de Apoio à Cultura), na Secretaria de Cultura do Distrito Federal, que aprovou a ideia. A partir daí, entramos em contato com bandas do DF e entorno que já possuíam um trabalho sério e, após muitos imprevistos, dúvidas e indagações, conseguimos fechar a parceria com outros três grupos que participam do DVD: Valhalla, Miasthenia e Roasting. Todas eles que acreditaram na ideia e que nos ajudaram a fazer esse projeto se tornar real. Quanto à ideia de realizar um segundo volume, com certeza. Já estamos desenvolvendo os preparativos e temos algumas ideias novas, como levar o evento para outros estados. Por enquanto são apenas ideias. Quem tiver interesse em conhecer mais do trabalho, é só acessar o site www.territoriometalico.com.br e dar uma sacada lá. Tem o VT do show completo, formas de adquirir o DVD e várias informações e fotos das bandas que participaram e seus trabalhos. Vale o confere! Apoie o metal nacional (risos).

 

Raphael Arízio: Apesar da sua música ser calcada no thrash e no death metal, vocês não deixam de experimentar outras sonoridades, como a incursão de elementos de metalcore e new metal. Quais são as influências da banda para experimentar novas sonoridades? Como fazer para não deixar esses elementos descaracterizarem o som de vocês?

Alu Pedrotti: Olha, essa pergunta é difícil de responder. Acho que porque tudo acontece de forma muito natural. Somos cinco pessoas com gostos musicais até certo ponto semelhantes e ao mesmo tempo bem diferentes, e acho que isso é o que traz essa mescla de elementos e sonoridades variadas. Quando compomos, geralmente uma ideia inicial é apresentada, e essa ideia vai sofrendo mutações com as sugestões de cada um, até que chegamos num ponto em que todos gostam. Não tem muita racionalidade no processo. Acho que é uma química que dá certo (risos).

 

Raphael Arízio: Uma das principais características do Peso Morto são suas letras em português. Por que essa decisão de escrever somente em sua língua natal? Em uma das letras temos como tema a morte segundo ritos espirituais, entre eles a umbanda. Existe uma pretensão de utilizar mais temas brasileiros?

Paulo Lima: Quanto às letras, optamos pelo português pela facilidade de composição, expressividade e, principalmente, pela identificação do público com as letras. Facilita a compreensão e se torna mais envolvente nossa relação com a plateia. Em relação às temáticas, nossas músicas transitam sobre temas introspectivos, políticos e espirituais. “Corpo Fechado” foi a primeira amostra disso e isso ficará mais evidente com a descoberta das novas músicas que vem por aí em nosso primeiro disco. O Brasil é um país muito rico em temas místicos e nós achamos tudo isso muito interessante de ser explorado em nossas composições. Porém, não temos pretensão de nos fixarmos especificamente em nenhuma religião. A segunda música do nosso EP, por exemplo, “Futuro Negro” faz referência ao inferno do evangelho e à baratosfera, dimensão extrafísica, mencionada em livros do espiritismo e da conscienciologia. A umbanda é uma religião intimamente ligada às raízes brasileiras e achamos que seria original e uma homenagem bacana unir esse universo com uma mensagem meio que de descarrego.

 

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Raphael Arízio: Sendo a banda de Brasília, o que acontece na cidade em termos de política influencia a banda em algum sentido em suas letras?

Paulo Lima: Sem dúvida. Quem mora em Brasília acaba sendo mais afetado pelo clima político do país, até por conviver mais com protestos e movimentos sociais que vêm de todas as partes do Brasil, além do fato de termos a nossa cidade como centro de poder e figurando todos os dias nos noticiários. Nós acreditamos que a música tem o poder de abrir os olhos das pessoas, despertar consciências para muitas questões relativas à crise que o país vive, causada em boa parte pela corrupção que degrada todos os setores da nossa sociedade. Como artistas, temos obrigação de refletir essas questões e tentar, por meio do nosso trabalho, pelo menos chacoalhar a galera para sair desse estado de dormência em que estamos depois de anos e anos de escândalos atrás de escândalos. A música produzida em Brasília tem uma história admirável de bandas e artistas com esse viés ativista e nós pretendemos somar o Peso Morto a esse hall também.

 

Raphael Arízio: Tendo alguns integrantes bem ativos no underground brasiliense, o que a banda pode falar sobre a cena da sua região? O que acham que poderia mudar para ter uma cena mais ativa? E quais as bandas de destaque segundo o Peso Morto?

Alu Pedrotti: Cara, a cena independente de Brasília é bem forte. Tem muita banda boa na cidade, de todos os estilos e gostos. Temos Miasthenia, que é um pagan metal de primeira, e que está no DVD Território Metálico, temos DFC com seu hardcore genuíno, tem o Arandu Arakuaa, que mistura elementos indígenas no som, tem Violator, Moretools, Death Slam, Device, Optical Faze, Degola, Fleshpyre, enfim, são tantas as bandas que acreditamos merecer destaque que essa resposta iria até o final da revista (risos). Quanto ao que podemos falar da cena e o que achamos que poderia mudar para termos uma cena mais ativa, acredito que o que falta um pouco na minha opinião é a conscientização de que o apoio do próprio meio é fundamental, e oportunidade e locais dispostos a abrigar os eventos. Com o próprio “Território Metálico” tivemos muita dificuldade em achar um local que topasse abrigar o evento. Na real, essa é uma discussão que vai muito além da cena simplesmente, e é muito mais complexa para se responder aqui, mas a grosso modo é uma bola de neve. Os donos de estabelecimentos têm o interesse do capital. Eles querem lucrar com o evento que realizam em seus estabelecimentos. Como as cenas independentes geralmente são menores em volume de pessoas, em relação aos gostos populares, acaba que os donos dos estabelecimentos, de forma geral, optam por realizar eventos para aquele público que fará a casa dele lotar. E acredito que aqui entram as bandas covers, pois apesar da cena independente ter aquele público fiel, tem também (e geralmente é a maior parte) aquele galera que curte o metal, mas não apoia as bandas independentes de forma tão ativa, e acabam indo para shows de bandas covers ao invés dos shows das independentes, o que faz o público dos eventos independentes ficar reduzido, consequentemente dando menos lucro para o dono do estabelecimento que topou abrigar o evento independente, e como corolário esse dono de estabelecimento começa a optar por outros eventos, e isso vai rodando como uma bola de neve. Acredito que, de forma geral, para a cena independente crescer de forma sólida é necessário que a galera conscientize essas questões e apoie e incentive a cena da sua região. A união é fundamental nessa jornada.

 

Ficha técnica

Local: Brasília/DF
Membros: Paulo Lima (vocal), Alu Pedroti (guitarra), Ricardo Thomaz (guitarra base), Rennan Moura (baixo) e João Paulo (guitarra).
Gênero: thrash metal

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