Entrevista Projetor Trator: Tratorando de norte a sul, dentro e fora de Brasilis

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Crédito: Eduardo Murai

Por: Matheus Jacques

 

ODM: Humanofobia marca o décimo ano de existência do Projeto Trator. Num primeiro momento, qual o saldo/balanço dessa década de atividades?

Thiago Padilha: Graças ao Projeto Trator conheci muitos lugares e fiz muitos amigos. Isso pra mim é um saldo muito positivo e me motiva a continuar tocando. Não sei o que o futuro nos reserva, mas a filosofia do faça você mesmo levaremos até o final.

Paulo: Só de pensar que começamos como um projeto despretensioso e já estamos chegando na adolescência, é muito louco. Acho que sete desses 10 anos foram bem ativos mesmo. Desbravar caminhos, correria, turnês, lançamentos, conhecer e conectar pessoas, conhecer lugares diferentes é demais. Só de pensar que já tocamos em alguns lugares do fim do mundo da Patagônia argentina em duas ocasiões, além de colar muito cartaz na rua, me diz que um dos saldos desse balanço foi abrir mais a cabeça.

 

Nesse novo trabalho, vocês fazem “releituras” de seus próprios sons. Na montagem do tracklist vocês escolheram seus sons favoritos ou rolou um outro critério de escolha?

Thiago Padilha: A gravação do Humanofobia rolou na semana seguinte da nossa turnê pela América do Sul. Pelo Converse Rubber Tracks conseguimos um dia disponível para gravação no foderoso estúdio Family Mob. Escolhemos as músicas que estávamos tocando durante esses shows e fizemos uma lista com umas 10 ou 11 músicas e gravamos o que foi possível em um dia. A mixagem/masterização ficou por conta do nosso parceiro de longa data, David Menezes Davox (Testemolde), que também acompanhou a gravação.

Paulo: Critério de escolha não teve. Fizemos uma triagem das prediletas de cada um, uma lista mesmo que era o nosso repertório nessa gig e o resultado foi essa tracklist.

 

Como você definiria atualmente a sonoridade da banda?

Thiago Padilha: Atualmente diria que a sonoridade do Projeto Trator tende ao sludge metal e se funde a vários outros gêneros e subgêneros de sons que curtimos.

Paulo: Sabe quando você escuta aquela banda e pensa: “eu queria fazer um som assim”? Pois é isso que sinto. Fazendo o som que me satisfaz sem regras e padrões. Sonoridade densa, suja, crua, dissonante, poluída, cinzenta, pesada, livre e experimental, sem o refrão perfeito e a preocupação de agradar. Tipo, vamos misturar o Mayhem com a Patife Band do nosso jeito? Música feia para quem gostar. Nos shows, metade do nosso repertório atualmente é baseado em jams.

 

Em divulgação do novo álbum, vocês fizeram essa tour trazendo a banda mossoroense Black Witch. Há uns meses, rolou um giro com as bandas Cocaine Cobras (CE) e Mondo Bizarro (PE). Vocês têm uma relação especial e uma afetividade musical grande com a galera do Nordeste? O vocês têm achado do cenário underground de lá?

Thiago Padilha: O Nordeste é foda! Eu e o Paulo temos família por lá e a movimentação de bandas na região é muito grande. Foi inevitável acabarmos fazendo nossa primeira turnê por aqueles lados, em 2012. Passados alguns anos, os laços com bandas e selos só se estreitaram.

Paulo: A mãe do Padilha é cearense e eu, embora tenha sido criado em São Paulo, sou pernambucano de Olinda. Essas conexões aconteceram lá. Já fizemos duas turnês pelo Nordeste. Sobre as bandas citadas acima, temos uma relação amizade mesmo. O Rafaum (Black Witch) também toca no Mad Grinder que já foi a Dead Pixel e ele é de casa. O Junior (Mondo Bizarro) é outro parceiro, ele toca com o Chico e o Rafael que são todos brothers. Essa turma faz parte do nosso ciclo de amizade há anos. A gente se conheceu na nossa primeira gig pelo Nordeste, em 2012. O Cocaine Cobras veio depois, nos conhecemos no início no ano lá e  eles armaram um show bem foda em Fortaleza. Amo esses arrombados.

O cenário lá é bem ativo, muita banda, muita coisa rolando, porém com as mesmas limitações que temos aqui: poucas casas e quase nenhum apoio. Triste. Tem muita coisa legal lá: Kalouv (PE), Talude (RN), Mojica (PE), Demoniah (PE), Eu o Declaro meu Inimigo (PE), Rabujos (PE), Bastian (AL), Expose Your Hate (RN), Catarro (EN), Red Boots (RN) e por aí vai.

 

Crédito: Eduardo Murai

Em alguns shows, o público é grande e em outros é menor. Em shows menores a plateia costuma ser mais conectada com a musicalidade, apresentando uma interação mais forte. Isso costuma rolar com vocês? O que têm achado das plateias em seus últimos giros pelo pais?

Thiago Padilha: Sem dúvidas show pequeno é o mais intimista e permite uma maior interação. Meu tipo de público preferido independe de ser grande ou pequeno. O que eu mais gosto é daquelas pessoas que abrem roda, ficam bangueando e pulam do palco. De forma geral, sempre fomos muito bem recebidos pelo público em shows pelo Brasil e fora daqui também.

Paulo: Plateias grandes não são ruins, mas eu acho um pouco burocrático. Eu piro bastante em ambientes mais intimistas, a interação é mais fácil. Eu curto mesmo é ver o povo bangueando.

Crédito: Eduardo Murai

 

A tour anterior de vocês chamou-se “Fora Temer”, apresentando uma visão sobre o descontentamento com a direção política de nossa sociedade. Essa mais recente levou o nome do novo trabalho, Humanofobia. Vocês têm muito medo do ser humano e do que ele e capaz (risos)?

Thiago Padilha: Acho que no atual sistema político/econômico em que estamos inseridos não há boas perspectivas para o futuro cada vez mais distópico que nos aguarda.

Paulo: Sim. Poucos sabem, mas eu vim do futuro, e a parada tá tensa (risos). O quadro político no mundo anda muito estranho e me parece que as pessoas que corroboram com isso são maioria. Como não ficar com medo do ser humano?

 

Além de bastante quilometragem pelo Brasil, vocês já fizeram as malas para rodar pela América do Sul, tocando em terras chilenas, argentinas e uruguaias. Rolou até um split com a banda argentina Soma. Vocês têm algo em mente para o futuro envolvendo novos giros fora do país ou mesmo novas parcerias com os camaradas de fora?

Thiago Padilha: Rolou outro split também, com a banda Los Elefantes y el Árbol Solar, que lançamos simultaneamente ao álbum Despacho, em 2015. Infelizmente não foi possível realizar shows de lançamento desse split, diferente do que rolou com o Soma, em que divulgamos o trabalho conjunto em várias datas durante a segunda vez em que estivemos na Argentina. Sempre temos planos para novas turnês, mas é melhor não falar nada para não estragar a surpresa. Por enquanto, o que deve rolar no começo de 2017 é o lançamento da cassete Gira Sudamericana en Vivo.

Paulo: Sim, como o Thiago disse, gravamos um split com a Soma, com som captado ao vivo num festival foda em Neuquén, lá na Patagônia. E outro em Buenos Aires com a banda do Mati, o Los Elefantes y el Árbol Solar, que saiu pela Fauna Records. Vontade não falta, precisamos voltar para a Argentina sim.

 

Para encerrar, fica aqui o espaço para vocês falarem o que quiserem: recomendar uma banda, indicar um filme, xingar um político, qualquer coisa.

Thiago Padilha: Valeu October Doom! Vou aproveitar o espaço e indicar algumas bandas fodas com as quais dividimos os palcos nos últimos anos e que ainda não citamos nessa entrevista. Sempre tocam no meu celular: Montaña Electrica (ARG), Knei (ARG), Las Olas (ARG), Autoboneco (SP), Umbilichaos (SP), Cassandra (PR), Marte (PR), Lamba-te (PR) e Ruínas de Sade (SC).

Paulo: Valeu, October Doom, espaços como este estão cada vez mais raros. Valeu! Você deseja montar uma banda? Manda ver! Faça do seu jeito. Ah, não sabe tocar nada? Insista! Monte a banda do seu jeito e com seus amigos que vai rolar. Ignore padrões e fórmulas. Grupos musicais que sempre escuto: Deafkids, Tuna, La Carne, Eu o Declaro meu Inimigo, Renegades of Punk, O Cúmplice, Noala, Krisiun, RDP, Subtera, Violator, Social Chaos, Armagedom, Karne Krua, Sarcófago, Cuco (ARG). E pau no cu do Temer, Bolsonaro, Alckmin, Dória, Deus e da Família.

Crédito: Eduardo Murai

 

Ficha Técnica:

Integrantes: Paulo Thompson Ueno (guitarra, vocal & efeitos)

Thiago Padilha (bateria)

Ano de Formação: 2006

Local: São Paulo/SP

 

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