Mourning Sun – Conquistando novos Horizontes

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Por Rafael Sade

Recentemente dissemos o quanto o Chile é importante em projetar bandas da América do Sul para o mundo, e desta vez não foi diferente. No mês de maio passado, a cantora da banda chilena de atmospheric doom metal Mourning Sun, Ana Carolina, esteve em São Paulo. Aproveitamos a oportunidade para conversar e saber sobre shows e a nova turnê europeia, participações especiais e novos lançamentos prometidos ainda para este ano.

Rafael Sade: Como está sendo a atual fase do Mourning Sun? Muitos acontecimentos e novidades em relação à banda?

Ana Carolina: Em primeiro lugar eu quero agradecer ao convite e o espaço pra falar do Mourning Sun. Temos muitos amigos aqui no Brasil, é muito especial esse momento e agradeço. Tem muita coisa pra se falar, a nossa história é bem curta, fez três anos no mês de abril e muitas coisas aconteceram nesse tempo – uma carreira curta mas intensa. Depois da gravação do Último Exhalario (2016), fomos convidados para tocar na Europa no ano passado. A tour foi bem-sucedida, gostamos muito de tocar lá e conhecer músicos que nós gostamos e que nos deram apoio, pois gostam da nossa música. Fizemos amizade com as bandas do Brasil da qual tocamos juntos na Europa, como Mythological Cold Towers e o Jupiterian. Nossa fase atual é a gravação do novo álbum que irá sair em dezembro pelo selo europeu The Vinyl Division, será lançado em vinil e junto uma nova tour europeia. Vamos tocar no Metal Gates, em Bucareste, na Romênia, junto com o Saturnus, Primordial e The Foreshadowing, e também no Autumn Souls, em Sófia, na Bulgária, no Under the Doom, em Portugal, e no Dublin Doom Days, na Irlanda, além muitos shows no Chile.

Último Exhalario – Capa

Rafael Sade: O Último Exhalario completou um ano. Como têm sido a recepção mundial sobre esse álbum?

Ana Carolina: O álbum tem músicas que estão em espanhol e isso foi um desafio quando estávamos criando as músicas, pois nunca pensamos que teríamos uma recepção tão boa tanto no Chile quanto no exterior. O dono do selo europeu The Vinyl Division, que também lançou o primeiro trabalho do Clouds, entrou em contato conosco interessado em lançar o nosso álbum em vinil para o mundo inteiro. Quando tocamos na Europa vendemos muitos CDs e camisetas e quase não temos mais esse material, que foi uma artista europeia que fez. Pegamos o merchandising em Sófia e começamos a viajar tocando e vendendo o material. Nunca pensamos em ganhar dinheiro com a música, mas estamos economizando para a nova tour.

Rafael Sade: Vocês tocaram no Metal Female Voices Fest em 2016. Como foi essa experiência de representar a América do Sul nesse evento tão importante para o cenário metal europeu?

Ana Carolina: Foi especial. O Mourning Sun além de ser a primeira banda da América do Sul a tocar nesse festival também foi a primeira banda de doom metal a se apresentar lá. Foi atrativo porque o público desse festival tem vontade de ouvir novos sons, e muitos deles ouviam pela primeira vez uma banda de doom metal ao vivo e com um vocalista feminino. Eu sabia que era um desafio também, porque o público e o cast de bandas é bem diferente. Uma coisa que o Mourning Sun sempre tentou evitar – e essa é uma promessa feita desde o primeiro ensaio da banda – era a de fazer música pra poder tocar e viajar para outros lugares tocando como agradecimento por todos esses anos de apreciação musical. Então nunca pensamos em tocar em um festival tão grande, tocamos na frente de duas mil pessoas ao meio-dia. Foi praticamente a mesma audiência da última atração que foi a Tarja Turunen. Foi uma conquista levar a nossa música aos melhores cenários possíveis.

Rafael Sade: Fale sobre as participações especiais que você está fazendo, com quais bandas você já gravou e propostas que estão surgindo.

Ana Carolina: Todas as músicas que eu participei, as ideias vocais e as letras são 100% minhas. Eu comecei a pensar em fazer colaborações para explorar outras estéticas. Eu gosto muito de folk, sludge, black metal, avant-garde e doom metal. A primeira coisa que me vem à cabeça é doom metal e já explico isso para as bandas, mas existem muitos estilos que pra mim têm o mesmo impacto, me trazem as mesmas emoções. Primeiro lugar eu entrei em contato com o Rune (The 3rd and the Mortal) que é da minha banda favorita. O contato foi pra tentar fazer um disco solo daqui a três ou cinco anos. Ele me convidou pra cantar com o Manes, que é a banda que surgiu após o fim do The 3rd and the Mortal. Após a turnê do Mourning Sun, viajei pra lá e gravei com eles por uma semana, fiquei no estúdio e gravei oito músicas do novo CD que vai sair daqui uns dois ou três meses – eles não têm tanta pressa pra lançar, pois trabalham sem prazo. O Anders, do In the Woods, mandou duas músicas para eu colaborar com eles, ainda estou aguardando algumas permissões, mas deve sair para o próximo ano. Após o retorno ao Chile, recebi uma proposta de colaboração do Evadne, banda espanhola de doom metal, eles são bem amigos do Mourning Sun. Essa colaboração eu já gravei e está tudo pronto pra sair o CD. E depois, quando o Mourning Sun foi fechar com o selo da Espanha, The Vinyl Division, o Daniel, dono do Clouds, líder e baterista do Shape of Despair, me convidou para fazer uma colaboração. Eu gravei no Chile com o Rodrigo (Mar de Grises), que é o meu produtor no Chile, meu melhor amigo lá e foi o produtor do primeiro EP do Mourning Sun. Gravei no seu estúdio e mandei as demos dos vocais para o Clouds. Quando cheguei na Europa para gravar com o Déhà, que é o dono do estúdio e baixista da banda, o Daniel falou: “Não grave nada, eu gostei do jeito que você mandou. Eu adorei pois tem muito a sua essência”.

Rafael Sade:  O Mourning Sun lançou uma música no final de 2016, “Exhaustion of Life”. Essa música vai estar presente no álbum novo?

Ana Carolina: Foi uma música que custou muito, pois a fizemos no período que minha mãe e meu pai estavam morrendo. O Eduardo e o Sebastião estavam compondo e juntando partes da música todos os dias nesse período de sofrimento meu, e a música saiu assim. As letras e os vocais sairam na primeira tomada de gravação. É uma música que tem uma carga grande de sentimento para mim. Vamos incluir na versão em vinil do Último Exhalario. A linha de composição mudou um pouco, não será mais tão atmosférica e avant-garde como The 3rd and the Mortal, mas seguirá uma linha na sonoridade do funeral doom, influenciada por bandas como Shape of Despair, Mournful Congregation e Evoken. É um desafio. Em todo lançamento de CD a banda faz reuniões para discutir sobre conceitos do álbum, fazemos uma declaração de princípios sobre o que o álbum vai falar, a arte, a estética e tudo o que tem a ver com isso. Para nós, o conteúdo é muito importante porque você entrega uma mensagem para os ouvintes e isso é uma responsabilidade muito grande.

Rafael Sade: O álbum novo já tem nome? Conte-nos sobre ele.

Ana Carolina: Será lançado em dezembro e vai se chamar Bahía Desolación. Será um álbum cantado todo em espanhol e vai sair em vinil com distribuição mundial. Bahía Desolación é um lugar físico, mas também um lugar que fica no interior de si. Lugar físico porque fica no extremo sul do Chile, é uma ilha isolada, um lugar de morte aonde não se pode viver porque as condições são ruins e é muito frio. Antigamente os marinheiros que viajavam para esse lugar a fim de conquistar novas terras não conseguiam continuar navegando devido ao clima. Visitei esses lugares em 2015 e me serviram muito de inspiração. O CD vai abordar isso não só em aspecto físico/concreto, mas também no abstrato devido aos sentimentos.

Rafael Sade: Como é a relação do Mourning Sun com os fãs?

Ana Carolina: Temos muito contato com o pessoal do mundo inteiro, em especial da Síria, que nos manda e-mails, mensagens pelo Facebook, nos agradecendo pela música, pelas letras. São pessoas que você conversa e não sabe se vai conversar de novo, se vão conseguir chegar em casa, se no dia seguinte quando forem pra universidade irão conseguir voltar pra casa. Um menino me mandou mensagem outro dia e disse que gostava de tocar guitarra e que tinha virado fã de doom metal graças ao Mourning Sun. Isso pra mim é muito importante, faz parte da nossa missão e o álbum é dedicado a essas pessoas.

Rafael Sade: Obrigado pela entrevista, Ana. Deixo aqui o espaço você deixar o seu recado aos leitores da October Doom Magazine

Ana Carolina: Agradeço o convite, o interesse e a apreciação pela música do Mourning Sun. Temos um carinho muito grande pela audiência do Brasil. Temos muitas bandas brasileiras amigas e, para mim, é o meu segundo lar. Tomara que consigamos tocar em São Paulo até o final do ano, estamos torcendo por isso. Agradeço pelo espaço!

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