Por que nossos trabalhos não chegam no mesmo nível dos gringos?

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Por: Fábio Mazzeu

 

Você já está me odiando antes de ler a primeira linha desse texto.
Eu sei.
Mas não me odeie. Por mais que o título seja polêmico, eu guardei esse artigo pro mês de aniversário da ODM por um motivo especial.
Antes de tudo, eu não estou falando da qualidade das bandas ou de criatividade dos artistas.
Eu consigo encher minhas duas mãos com bandas brasileiras que mandam tão bem quanto ou até melhor que as gringas.
O que eu estou falando é de qualidade de produção musical.
Estou longe dos gringos neste quesito e penso que a maioria da galera trampando com isso também se sente assim, por diversos motivos.
Porém, alguns pontos em comum são vistos por todos os profissionais de áudio na hora de fazer um trabalho e eles são divisores de água, na minha opinião.
Então por que nossos trabalhos não chegam ao nível dos dos gringos?
 

Planejamento

Brasileiro é péssimo em se planejar.
Eu sou e você também é, admita.
Conversando com os amigos da banda Tempo Plástico, estávamos falando sobre um curso do Sebrae de empreendedorismo na música e que eles sugerem um planejamento de, no mínimo, três anos.
São 1.095 dias pensados com antecedência. Mil e noventa e seis se algum dos anos for bissexto. Baita trampo, né?
E planejamento envolve tudo: desde estratégias de divulgação até a parte que importa pra gente nesse texto, que é produzir e gravar.
A gravação é um processo delicado, que inclui obras musicais que tem um valor sentimental para os artistas, ao mesmo tempo que tem um produtor/engenheiro tentando captar a essência da música com a melhor qualidade possivel. E ainda tem o lado comercial daquele trabalho.
Baita trampo. De novo.
Quantas bandas você conhece que planejaram bem esse processo?
Pesquisaram por diferentes produtores, marcaram reuniões para conversar sobre o processo, pesquisaram estúdios de gravação, pensaram em um conceito, correram atrás de selos e gravadoras, criaram um cronograma de ensaios de composição e de períodos de gravação etc e etc.
Pode ser que fez um, mas não fez o outro.
Para mim, esse é o primeiro ponto que impede nossos trabalhos de chegarem ao próximo nível.
 

 

Investimento versus gasto


Esse é um ponto importante para o mundo musical como um todo.
O cara tem uma banda, faz suas músicas, está curtindo o processo, mas ele não quer gastar grana pra gravar e produzir o trampo dele.
Ele acha que isso é um gasto quando deveria ser um investimento.
Você não acredita no seu trabalho?
Eu acredito no meu e estou disposto a investir nele.
Uma das coisas mais comuns é ver um cara comprando uma guitarra de quatro mil reais, mas não está disposto a pagar uma parte de dois mil em uma banda de quatro caras.
Com oito mil reais dá pra fazer um puta álbum.
Mas o cara não vai ter o bem físico ali, na frente dele.
O que nos leva a mais uma questão de planejamento.
Gravação é investimento porque ela precisa dar retorno. Seja ganhando pelos plays no Spotify ou usando o trabalho pra conseguir shows melhores (e que pagam mais).
Sacou por que isso é um investimento?
Já se foi o tempo que demos porcas conquistavam contratos com grandes gravadoras. Agora é cada um por si, parceiro.
E se você não está disposto a investir no seu próprio trabalho, tem gente que está.
Depois você não pode reclamar quando eles passarem na sua frente.
 

Pensando na música como um negócio

O Kiko Loureiro (atual guitarrista do Megadeth) bate na tecla no seu curso de Music Business – que é muito bom, por sinal – sobre a importância de pensar na sua carreira como um negócio.
O que ele chama de “mindset empreendedor”.
Cara, quando uma banda gringa que tem um selo por trás vai lançar um trabalho novo, ela não quer saber se os amigos dos membros vão achar legal.
Elas querem vender plays, vinil e CDs.
Querem fechar mais shows e conquistar mais fãs.
Não adianta, a ideia tem que ser essa.
Tudo bem, muitas bandas disponibilizam o download grátis dos seus CDs, mas pense em uma banda grande que faz isso com frequência?
Sabe por que foi difícil? Porque elas sabem que suas músicas são seus produtos e você não sai distribuindo seus produtos de graça por aí.
Claro, uma degustação não faz mal, mas dar tudo de graça é sacanagem.
E fica cada vez mais fácil monetizar com plataformas e formatos.
Hoje, até o YouTube paga royalties dos plays por lá.
Tire essa ideia de que um álbum são só musicas gravadas.
Ele é um produto do seu trabalho.

 

 

O Produtor Musical

 

A ideia dessa coluna surgiu quando o famoso Tio Morgan (editor-chefe da ODM) me perguntou se eu tinha interesse em falar um pouco mais sobre produção musical e fonográfica aqui na revista.
Muito porque existem milhões de dúvidas sobre essss temas, o que é supernormal.
Eu também tenho muitas dúvidas até hoje. Mas se existe um diferencial que eu observei entre bons trabalhos (gringos ou brasileiros) é quando tem um produtor musical na jogada.
Existem vários tipos de produtores. Desde os que trabalham mais como engenheiros de gravação com inputs pontuais sobre as musicas em si, até os que se envolvem 100% em todas as partes do processo, inclusive na composição.
Na real, tudo depende da necessidade das bandas.
Mas quem vai admitir isso?
Acho que nunca vi alguém falar “a minha banda precisa de um produtor musical”.
Se você leu minha coluna sobre produtores musicais do doom e stoner, viu que o Corrosion os Conformity tem seu produtor, John Claudette, como um quinto elemento.
O Quincy Jones era a sombra do Michael Jackson.
O Glyn Johns criou novas formas de captação pra conseguir absorver o peso do Led Zeppelin.
Sir George Martin é indiscutivelmente o quinto Beatle.
Uma opinião externa pode fazer toda a diferença, principalmente se for de alguém que se identifica com o seu som e tem abertura durante o processo de composição/gravação.
E não vem me dizer que você não precisa.
Todo mundo precisa! Nem que seja de um próprio membro da banda.
Na gringa, um músico produzir o seu próprio trabalho é tema de perguntas em entrevistas.
Lembro de uma com o Chris Cornell para a Guitar.com na qual o repórter perguntava como foi produzir o próprio disco e o Cornell respondeu: “Foi como perseguir meu próprio rabo por três meses. Quando eu achava que uma música estava pronta, vinha outra ideia, eu adicionava ela e de repente tinha que fazer tudo do zero, porque aquele primeiro sentimento já estava perdido”.
Veja bem, não quero dizer que um álbum não pode ser feito sem um produtor, óbvio que pode e isso é feito constantemente.
Mas contar com um pode acelerar todo o processo, simplesmente por ter alguém que vai falar “não” com frequência por perto.
– Acho que vou colocar mais uma nota aqui.
– Não. Não precisa.
– Acho que vou colocar mais uns tons nessa virada.
– Não precisa, vai embolar tudo.
Ele pode ser o cara que vai falar: “Ei, isso ficou do caralho! Vamos testar na música? Talvez no pré-refrão chamando pro refrão, o que você acha?”.
Time que trabalha junto ganha junto, já dizia algum tiozão fã de futebol em algum boteco da vida.

 
Conclusão
Agora que você já leu até aqui, posso dizer que esse texto não é uma forma de falar: “Ei, você está fazendo tudo errado”.
Não existe certo nem errado.
Eu não estou mais certo do que ninguém e vice-versa.
Mas esses pontos são alguns dos que eu percebi e pesquisei ao longo de anos e tento aplicar em cada trabalho que eu lanço com a minha banda – a Lively Water é meu rato de laboratório, foi mal, caras – e que eu espero que possam ajudar outras bandas por aí também.

Lembre-se: sua música é seu produto e por mais que você faça por amor a ela, se você tem um objetivo para o seu trabalho, é preciso aplicar o dito “mindset empreendedor”!

É isso aí, feliz ano novo e até 2017!
Um abraço.

 

>>> Este conteúdo foi extraído da October Doom Magazine #65.
Leia e baixe a revista aqui.