PREMIER Absent – Semen Prayer

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Os caminhos do Doom Metal têm sido trilhados quase à exaustão nos últimos anos. Entorpecidas, esfumaçadas, sádicas ou “tradicionais”, as sendas do gênero têm sido percorridas em variadas nuances por diversas bandas. Mais céleres e ligadas ao Stoner Rock, com riffs acachapantes; mais inebriantes e psicodélicas, misturando em doses cerebrais arrasto e velocidade; mais atreladas ao tradicional caminho de bandas como Pentagram e Reverend Bizarre; e por aí vai. Seja como for, o número de bandas explorando as possibilidades da vertente tem se mostrado grande, e vem se evidenciando de forma ascendente no país. Ainda que seja mais comum vermos bandas mais inseridas no contexto do Stoner Rock, mais dadas às práticas do Hard Rock setentista, do Blues e do deserto, muitos atos relacionados ao Metal desacelerado e torto têm despontando nos últimos tempos de forma notável.

(Towards The Void – Capa)

O leitor quer nomes? Vamos aos “culpados dos crimes” por alto: Witching Altar, Son of a Witch, Ruínas de Sade, Chant of the Goddess, Cassandra, Pantanum, Dirty Grave, Erasy, Saturndust, The Evil, todas bandas que lançaram trabalhos de qualidade dentro do gênero nos últimos tempos, explorando de forma diversificada e cada uma ao seu modo elementos como a psicodelia, o arrasto e a veia mais tradicional. Ao leitor e ouvinte, cabe adicionar mais um nome nesse exato momento: Absent. Fronteada por Thiago Satyr (voz/baixo), também membro da já citada banda pernambucana Witching Altar, a banda, radicada em Brasilia, Absent, completada por Caio (bateria) e Luan Lima (guitarra), vem mostrar ao mundo toda sua capacidade com seu EP de estreia “Towards the Void”, que será lançado oficialmente no fim do ano em versão física por uma parceria de quatro selos: The Metal Vox (BA), Resistencia Underground (PE), Left Hand Records (PR) e Misanthropic Records (DF).  “Towards the Void” é a vitrine de uma banda que conta com músicos muito competentes e que desfiam talento no som que produzem. Mixado e masterizado no Estúdio Bacamarte em Pernambuco, guitarra, baixo e bateria gravados ao vivo no Estúdio FM2 em Brasília e vocais a parte nos “refúgios” de Thiago e Caio, o trabalho apresenta uma produção polida o bastante para não soar dispensável e nula, mas visceral de modo que toda a carga emocional e atmosférica da sujeira do trabalho seja preservada. Ao decorrer do trabalho notaremos referências de bandas como Electric Wizard, Monolord, Cathedral, Acid King, Windhand e por aí vai. O fuzz está pulsando, transbordando calibrado nas cordas de Luan Lima. A bateria de Caio, como se desempenhada por Thor, cumpre o papel de forma irretocável e coerente com o trabalho. Thiago entrega uma performance notável no vocal, onde temos a adição de um trampo vocal atrelado ao lado atmosférico e disperso de forma ressonante no horizonte, como fagulhas elétricas perfurando um obscurecido céu apocalíptico. Sempre interessante ver uma variação dos usuais vocais vociferados e rasgados, conferindo algo mais “lascivo”, ébrio em certo ponto, melódico. “Towards the Void”, sintetizando, reproduzindo e adicionando algo às palavras da banda, é uma experiência surreal de fuzz, reverb, delay, vazio, eco, fumaça e caos.

Faixa a faixa:

Ophidian Womb” é a abertura do trabalho, uma faixa em ritmo mais cadenciado ainda engatando a marcha e preparando o terreno para audição do trabalho. A Absent entrega um Doom psicodélico com um punhado de riffs precisos e que devem agradar os familiarizados com os suecos da Monolord. A bateria acompanha a cadência do cântico com a firmeza e o ritmo de um ritual de invocação de uma entidade abissal Lovecraftiana. O vocal de Thiago Satyr, quando presente em meio à atmosfera por vezes instrumental e climática da faixa, se soma ao painel como a encarnação oral de um dialeto antigo de invocação, convidando as forças ocultas a comungarem com os ouvintes. Cada riff é mais um golpe na mortalha, permitindo que as insidiosas e obscuras forças se entranhem um pouco mais em nosso frágil mundo. A guitarra serpenteia e fustiga, se entranhando na mente.

De longe a minha faixa favorita do trabalho, com os versos do refrão latejando fumegantes a cada repetição, “Semen Prayer” sucede “Ophidian Womb”. Seguimos na linha funérea e depravada de Doom Metal arrastado em sua abertura, com a inserção de samplers, coisa que se repetirá ao longo da faixa. Ah sim, como samplers caem bem quando bem utilizados no gênero! Esses fazem referência a operações mágicas de Aleister Crowley executadas em 1920, compiladas em “The Great Beast Speaks”. O primeiro, “The Call of the First Aethyr”. Já o segundo, “The Call of the Second Aethyr”. Ambos são uma boa adição à psicotrópica atmosfera cataclísmica da faixa. O terceiro minuto da música entrega por alguns momentos uma mudança de marcha, uma guinada no ritmo do som onde a lânguida serpente abissal se contorce e começa a se deslocar mais veloz, prestes a engolir os incautos.

Um interlúdio suave e de aparente calmaria separa essa primeira parcela de sofrimento e terror de mais um momento de gravidade e peso cadenciados, encerrando em alto estilo a faixa.

Funeral Sun” foi a primeira faixa posta na mesa, no início do ano, e nada deve às duas anteriores. Muito pelo contrário, é outra esmagadora demonstração do que os elementos certos nas mãos corretas são capazes de fazer. É uma das faixas que mais lentamente se desenvolve e talvez a mais atmosférica, mas também onde o caos e o temor se moldam em sombras ameaçadoras pairando sobre a humanidade. A introdução vai entregando os detalhes aos poucos, até que o atmosférico vocal de Thiago surja para seguir com o culto ao Vazio. Os riffs se misturam entre mais cadenciados e mais velozes, assim como os diferentes andamentos da faixa, que apresenta o suficiente para evitar que o ouvinte se acomode. O encerramento é pura apoteose, com a bateria massacrando os ouvidos.

Urine”, a faixa mais longa do trabalho, vem com o prenúncio de que infelizmente estamos chegando ao final do caminho. São mais 11 minutos e meio de som demencial de alta qualidade, arrasto sorumbático e catarse megalítica. Extremamente indicado para se ouvir no mais alto volume, apreciando a bela arte da capa do trabalho e entregue aos devaneios sônicos da Absent.

“Towards the Void” pode ser o álbum que muitos fãs de Doom Metal, principalmente os menos abertos à verve psicotrópica e atmosférica, mais tradicional, não esperavam ou não requisitaram, mas que subitamente invade o final de 2017 e se estabelece como o trabalho que todo fã do gênero no país PRECISARÁ ouvir. Como o trabalho que todo fã IRÁ ouvir. E, provavelmente, o trabalho que uma grande parcela, assim como este que vos escreve, IRÁ amar. Absent nos entregou de mão beijada, sem precedente, um dos grandes trabalhos já feitos no gênero no país. A nós, resta apenas conferir e nos deleitar. Selo “Imperdível” de garantia para o excelente e indispensável “Towards the Void”

Absent – Towards the void
Data de lançamento: dezembro/2017
Selos: the metal vox / left hand Records / misanthropic Records / RUD (resistência underground)

Tracklist:

1. Ophidian Womb
2. Semen Prayer
3. Funeral Sun
4. Urine

Banda:

Thiago Satyr – voz e baixo
Caio – bateria
Luan Lima – guitarra

Conheça mais do Absent nas páginas da banda:

https://www.facebook.com/worshipthevoid
https://ascendingvoid.bandcamp.com/