Resenha Necro – Adiante

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Por Matheus Jacques

Antes mesmo de iniciar a resenha do novo álbum da banda alagoana Necro, já fica o aviso: da próxima vez que aquele seu chegado vier comentar com você qualquer coisa do tipo “o rock morreu”, “não existe bom rock no Brasil” ou qualquer outro chavão, faça um favor a mim e a seu amigo: apresente essa nova compilação da Necro para ele. Já peço isso de antemão.

A verdade irrefutável sobre essa maravilha sonora alagoana é que o cenário do nosso rock autoral respira bem (e muito bem, obrigado!) no “submundo”, fora dos clichês, do “televisionável”, do radiofônico e “arrumadinho”. O rock (muitas vezes não tão) pesado transpira criatividade e a devida originalidade no “oculto”, no underground, sobrevivendo a duras penas e seguindo adiante graças a bandas como esta que aqui escrevemos sobre. Adiante é justamente o título do novo trabalho do trio formado por Lilian Lessa, Pedro Salvador e Thiago Alef, que nasceu como Necronomicon, e há algum tempo cortou o nome pela metade.

Em meio a um caldeirão de influências, inspirações e desatinos, com uma boa dose de brasilidade, Adiante abre com a faixa “Orbes”, que carrega uma tônica setentista trazida para o campo da atualidade. A abertura em estilão daquela época, retrô e com algum apelo bluesy, pode remeter àquela vibe sueca de algumas bandas mais atuais, mas mantendo uma roupagem que é toda da Necro. Apreciadores de Pentagram certamente encontrarão motivos para achar “Orbes” muito aprazível, com uma veia de doom rock setentista pulsante, densa, inebriante. Ponto positivo e OBRIGATÓRIO de se destacar: os vocais de Pedro Salvador e Lilian Lessa, cada um deles positivamente atuante em seu momento, em seu “palco”. O casamento das vozes na faixa é apaixonante.

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Necro – Adiante – Arte da Capa

A faixa que dá nome ao novo trabalho começa com um encaminhamento mais “animadinho”, enérgico, uma faixa pulsante e cheia de coração. Lilian Lessa toma as rédeas aqui e a conduz de uma forma suavemente poderosa, ou poderosamente macia – como preferir. O contraste entre a densidade (principalmente no instrumental) e a maleabilidade vibrante e sólida da voz desta mulher é incendiário. O tom da música varia entre uma pegada meio country, meio rockão de raiz, e um lance puxando para a psicodelia setentista e o blues. Em alguns momentos – talvez viagem da minha cabeça -, um quê de Mutantes vem à tona em algumas passagens (é meu sentimento). Esta canção é um dos melhores momentos do álbum, e Lilian é um show à parte no vocal.

“Azul Profundo” é mais uma empreitada psicotrópica conduzida pelos vocais de Lilian e Pedro e com uma veia ainda mais carregada de brasilidade e energia embaladas pelo “duelo” vocal dos dois. O órgão ao fundo complementa a roupagem um tanto soturna e por vezes tétrica, tudo conectado por uma energia musical mística e envolvente apresentada de forma impecável e fantástica pela Necro. A psicodelia, o hard rock e até reminiscências do occult rock, tudo se engata de forma perfeita.

“Viajor” mescla com eficiência verves distintas, o lance meio onírico, viajante e delirante à psicodelia em grande forma e à densidade mais hardeira e bluesy do instrumental. Os riffs são precisos, cravados na mente e reverberantes, e a cozinha praticamente exerce uma força de gravidade própria, tão densa e sólida que é. O bailar da Necro em “Viajor” pode levar os ouvintes a estados diferenciados de percepção, existências paralelas em outras realidades, transgressões catárticas e tudo o mais.

A aura setentista novamente permeia fortemente o ambiente em “Entropia”. Pedro e Lilian coabitam a música de forma harmoniosa com um complementando o outro, solidificando uma parceria massiva e encantadora, tanto em suas vozes quanto em seus instrumentos, e reiterando que a troca de instrumentos (Lilian toca baixo e Pedro fica na guitarra nesse álbum, alterando as posições em campo) funciona muito bem. O hard rock blueseiro das antigas preenche os espaços em “Entropia” e rola bonito, macio e fluente, com boas intervenções psicodélicas e (novamente) o órgão marcando presença forte na faixa.

“Espelhos e Sombras” e “Deuses Suicidas” fecham Adiante. A primeira é um agradável hard rock grooveado, malemolente e cadenciado, desenvolvendo-se e concluindo-se como uma faixa muito correta e interessante. “Deuses Suicidas” é diferenciada. A maravilhosa faixa com apelo blueseiro tem a presença fantástica da voz de Pedro com um destaque na entonação, no sotaque, evocando bastante de nossa própria música típica, associada ao jeitão meio de stoner rock da faixa, algo mais “reto” e direto ao ponto. Essa combinação cria uma música fora de série, destacada, contando ainda com ótimos riffs e uma temática muito bacana e chamativa.

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Necro no Abraxas Fest em Porto Alegre/RS – Foto por Billy Valdez

Vários elementos se juntam para criar uma aura especial neste disco (somados obviamente ao talento indiscutível do trio alagoano): todas as letras são em português; a produção de primeira no estúdio Superfuzz; o ponto interessante das vocalizações de Diogo Oliveira nas faixas “Azul Profundo” e “Entropia”; e a adição de alguns elementos retrô e bluesy.

Enfim, Adiante é uma bandeira fincada no fértil terreno do rock autoral, demonstrando que ainda existe muito da mágica e poder do rock em nosso país, feito (ainda por cima) o quanto é possivel “à brasileira”, com uma roupagem adequada a toda a particularidade e a excelência de nossa terra. Não é exatamente rock televisionável, arrumadinho e passa longe de ser lugar-comum, mas é aquele respiro forte e veemente de criatividade que precisamos.

Não custa lembrar: mostre Adiante ao seu conhecido, aos seus amigos, a qualquer um que puder, talvez ele se torne seu disco favorito.

Link: https://www.facebook.com/necro.al