Resenha: Zodiac – “Grain of Soul” (2016)

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Por Matheus Jacques

Esta resenha foi extraída da edição 61 a October Doom Magazine. Leia este e outros conteúdos em online ou faça o download:
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Despontando no ano de 2012 como uma grata revelação dentro do nicho do heavy rock, os alemães da Zodiac estreavam com seu primeiro álbum de estúdio “A Bit of Devil”, sucedendo uma demo de 2011 e apresentando elementos mesclados entre o blues e o hard rock setentista, alem de um toque meio southern rock.  Com um aspecto “poeirento” e carregando reminiscências de um rico contexto musical de cuja fonte várias bandas atuais beberam, alguns com menos e outros com mais sede, “A Bit of Devil” foi um dos grandes momentos do ano.

Alguns dos membros da banda carregaram uma bagagem curiosa para a Zodiac: Janosch Rathmer, baterista e co-fundador, esteve nas bandas Misery Speaks (Melodic Death Metal) e Long Distance Calling (Post-Rock); Stephan Gall, que foi chamado para ser guitarrista na banda após o início da construção da mesma, esteve na Misery Speaks com Rathmer. A eles, se juntaram o vocalista/guitarrista Nick Van Delft, com quem Rathmer iniciou a Zodiac, e o baixista e tecladista Robert Kahr. Assim deu-se a gênese da Zodiac.

Resenha

O novo álbum da banda alemã Zodiac vem a ser, em certos aspectos, um resgate de nuances dos “velhos tempos” (considerando que a banda é prolifica e lançou praticamente um álbum por ano até agora, variando alguns detalhes em sua sonoridade) e também o ponto da adição de certo aspecto “soturno” e mais denso. A timbragem, a construção das faixas, o desenvolvimento das mesmas, tudo parece remeter ao primeiro trampo dos caras, mas sem dispensar certa condição de “flexibilidade” que foi vista principalmente no segundo álbum, “A Hiding Place”.

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(Zodiac – “Grain of Soul” – Capa)

O vocal de Nick, ponto fortíssimo no primeiro álbum e dotado de um aspecto roufenho marcante, talvez possa ter sido notado como um pouco mais contido no segundo álbum, ainda que jamais tenha perdido todo aquele encantamento que deixava o cara meio com jeitão de “menestrel”. Em “Grain of Soul”, ainda que não retome completamente a potência e o desembaraço do trabalho de estréia, o cara entrega competentes e agradáveis linhas vocais somadas ao seu sempre excelente trabalho de guitarra, tornando o cara um nome bacana entre o atual cenário do hard/heavy blues. “Rebirth by Fire”, faixa de abertura do trabalho, comprova isso com um ótimo solo seu inserido ali pelo meio da canção, um petardo iniciado com um bom groove de hard/blues rock e uma cadência muito agradável.

“Animal” segue o trabalho com uma verve mais ligada ao stoner rock já em seu início, remetendo aos melhores momentos de “Bit of Devil” mas sem dispensar o groove bem característico da banda presente tambem em seus outros trabalhos. E é la pelos 2 minutos e tanto que ela engata seu clímax, com mais uma boa performance solo de Nick acompanhada do sempre eficiente trabalho de base de Stephen. “Follow you” destoa um pouco do andamento até então, não chegando a enfadar ou estar totalmente comprometida, mas com um desenvolvimento aquém do esperado e não tendo tanto destaque quanto possível. Uma canção até boa, no geral, mas com um refrão um tanto piegas.

“Down” coloca novamente as coisas de volta no trilho com um início revestido de uma atmosfera um pouco mais sombria e interessante. É uma canção introspectiva, trazendo à tona uma personificação mais densa do vocalista Nick Van Delft e podendo, surpreendentemente, remeter até mesmo a um climão meio Alice in Chains em determinado ponto (ou eu estou complemente louco…)  “Faithless” novamente traz para o jogo a roupagem “retrô” bluesy e o groove de qualidade da banda, coisa que só consigo descrever como “malemolência”. É necessário admitir, o fato urge: de trampo “swingado” nas seis cordas, tanto Nick quanto Stephen entendem muito bem. A faixa começa bem, a faixa termina bem, tem um bom refrão e um solo agradável. É o que realmente espero da Zodiac.

“Crow” é uma canção que mira num ponto e, definitivamente, o alcança por uma linha reta. Sem uma notável distorção de direcionamento, ápice ou reviravolta, soando quase como uma espécie de “desabafo”, um lamento bluesy. Uma faixa bem climatizada e que a mim particularmente agradou bastante logo de cara, coisa reforçada com o “teste das incontáveis audições”, mas que deve variar muito de pessoa para pessoa. As faixas “Ain´t Coming Back” e “Get Out” seguem na linha das boas canções cadenciadas e bem balanceadas da banda… Bons riffs, boa estruturação, a primeira um pouco mais “pra cima” e a segunda, novamente remetendo ao caráter mais introspectivo presente em certos momentos dos trabalhos na banda (a exemplo da própria faixa “Down”). Não importa se são grandes primores e exemplos de diferenciação dentro da discografia da banda, suas faixas sempre carregam apelo e qualidade dos dois guitarristas da banda. E a cozinha definitivamente também nunca faz feio, é importante ressaltar.

“Like the Sun” leva o álbum para sua reta final com energia desde o começo, mais uma daquelas faixas (sabe aquelas? Aquelas mesmo? Pois é!) que te impele a botar o volume no máximo e pisar o mais fundo possível no acelerador, sem destino e sem remorso. E felizmente essa vontade não some quando a faixa termina e se inicia a penúltima, “Sinner”, mais um daqueles libelos “chega de inércia, é hora de tocar o dane-se e acelerar”, uma ode ao rock´n roll tanto em forma quanto em conteúdo. Petardo de verdade, um dos momentos altos do álbum (principalmente se associada à faixa “Like the Sun”), com um grande solo também.

“Grain of Soul”, faixa-título do álbum, é uma das melhores canções presentes, dosando de forma “cirúrgica” e dando ênfase a cada elemento em seu desenrolar: peso, melodia, trampo de guitarras, refrão… tudo aqui teve a atenção merecida. Outro dos mais altos momentos do álbum, sem dúvidas, encerrando de forma correta a bolacha.

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No geral, “Grain of Soul” é uma grande adição à discografia dos alemães do Zodiac. Se não o melhor album deles, ao menos mantem afastada a sombra chamada “demérito”. Os caras têm dois bons guitarristas, uma eficiente cozinha e um vocalista diferenciado, alem de manjarem de verdade do que fazem e demonstrarem fazer isso com paixão. Na minha humilde opinião, ainda vai demorar uma eternidade pra lançarem algo que não preste… “Grain of Soul” é a prova disso.

 

Tracklist:
01 – Rebirth by Fire
02 – Animal
03 – Follow You
04 – Down
05 – Faithless
06 – Crow
07 – Ain’t coming back
08 – Get out
09 – Like the Sun
10 – Sinner
11 – Grain of Soul

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