Review de Blind Horse – Patagonia

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Créditos: Divulgação

Por: Matheus Jacques

Os trabalhos retrôs de Hard Rock não estão dando muito sossego esse ano. Pra cada lugar que você olha, eis um agrupamento de músicos a destilar riffs reverberantes e sonoridades revivalistas, com o intento de martelar nossos ouvidos e mentes com músicas que nos evocam nomes que ajudaram a construir nossos repertórios musicais, como Led Zeppelin, Hendrix, Mountain, Free, Rush e por ai vai.

Uns o fazem com menos recheio em sua bagagem de diversificação de referências, outro já capricham mais nesse conteúdo.

Neste segundo grupo se insere de forma brilhante em 2017 a banda Blind Horse, do Rio de Janeiro. Formada em 2014, a banda lançou seu primeiro trabalho em 2015, um EP envolvente e fumegante chamado “In The Arms of Road’ que contava com um escopo de referências que englobava coisas como o Hardão70-amado-de-todos-nós, o funk (apelo de Funkadelic e James Brown me saltaram aos ouvidos com esse tão poderoso EP), a psicodelia… enfim, um rock´n roll honesto e enérgico feito por gente que manjava o bastante pra jogar com elementos comuns sem que isso soasse descartável.

Chegamos em 2017 e nos é dada a oportunidade de acompanhar o que dois anos de distância proporcionaram para a banda. E a resposta é clara: pêia! Com apresentações refinadíssimas de todos os músicos, mas com minha ênfase pessoal e respeito aos demais posicionada nos trabalhos de Alejandro Sainz (com vocais elétricos de pura entrega) e Rodrigo Blasquez (atuação fantástica na guitarra), a Blind Horse apresenta com “Patagonia”, um dos melhores momentos de 2017 no Hard Rock.

Capa do álbum

A faixa título “Patagonia” inicia o trabalho destoando um pouco da essência passada pelo primeiro EP dos caras, se deslocando em um loop psicodélico que propicia uma quase “viagem astral”. A longa música se remexe em um desconcertante e entorpecedor rock psicodélico encorpado com fuzz e entremeado por referências de bandas como Siena Root e Led Zeppelin, e também propiciando uma vibe transcendental que deve ser captada e apreciada com avidez por ouvintes dos alemães do Samsara Blues Experiment. São mais de 15 minutos do mais fino e agradável “Rock chapante” que você possa imaginar. E isso na abertura do trabalho. “Rock´n Roll Me” retoma um espírito mais condizente com “In The Arms of Road” e soa como um garoto extremamente empolgado com sua guitarra, no auge da explosão hormonal, extravasando sua energia após ouvir alguns álbuns do naipe de Led Zeppelin, Jimi Hendrix e Black Sabbath. A faixa transmite um sentimento intimista que dialoga diretamente como nosso “eu-roqueiro interior”, aquele guri em fase de descobertas em contato com seus primeiros vinis, CDs ou que seja Mp3 recheados de petardos efusivos e barulhentos. A faixa se transforma assim em um explosivo rock´n roll primitivo, visceral, honrando raízes de bandas como Led Zeppelin, Blue Cheer, Mountain e Cactus. Que se ressalte a cadência quase que obscenamente dinâmica com que Gabriel Santiago conduz a bateria, além da entrega admirável de Alejandro Sainz no vocal.

Ainda em ritmo frenético, mas também fazendo uma generosa e honrosa concessão ao groove para que este tome seu lugar de direito na dança sensual que é a musicalidade da Blind Horse, “Noite Estranha” dá as caras com um indefectível “groovão” setentista embutido em um Hard Rock cantado em português e desenvolvido de forma eletrizante, faiscando chamas violentamente e fazendo com que inevitavelmente estejamos sacudindo a cabeça e vibrando junto com a canção. Do trabalho de guitarra da faixa, o mínimo apontamento de demérito seria um crime: afiadíssimo e trovejante, evidente, pulsante. Rodrigo Blasquez desempenha seu papel com a sapiência de um monge budista, escalando um Everest nota a nota e passo a passo.

Pra fechar com maestria, “Soul Locomotive” vem escancarando a porta com um belo pontapé em tom Hendrix-ledzeppeliano a nos desvelar um Blues avassalador e explosivo, intercalando oscilações de humor em seus diferenciados andamentos, ora mais introspectivos e cadenciados, ora mais intempestivos e implacáveis. Alejandro dá um show à parte e se mostra um vocalista dos mais capacitados, dos melhores da atualidade em minha humilde opinião.

Ainda não ouviu o novo álbum da Blind Horse? Já perdeu muito tempo, ouça agora mesmo. Já ouviu “Patagonia”? Ouça de novo. Já. Agora mesmo. Diacho, eu não precisava estar dizendo isso: é o que invariavelmente você fará! Acredite em mim.

BLIND HORSE é:
Eddie Asheton – baixo
Maicon Martins – bateria
Rodrigo Blasquez – guitarra
Alejandro Sainz – vocal
Ronaldo Rodrigues – teclado em “Patagonia”, “Noite Estranha”, “Soul Locomotive” e “Los Heraldos Negros”

BLIND HORSE – “Patagonia”
Data de Lançamento: 19 de Maio
Abraxas Records/Tropical Fuzz Fever Records/Dinamite Records/Rock Station