Review de Cobalt Blue – Stop Momentum

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Por: Matheus Jacques

 

Lançado pelo “recém-formado” selo Infrasound Records, pertencente aos irmãos Mauro e Samuel Fontoura do duo de heavy blues Muñoz – e que estreou com o mais recente trabalho dos dois “Smokestack” (2016) – se apresentou ao mundo no fim de Abril o full de estreia da Cobalt Blue, “Stop Momentum“, banda formada por alguns nomes já conhecidos do rock autoral underground de Santa Catarina.

O trabalho é a estreia com um álbum completo de uma banda que acumula algum tempo na estrada, realizou um bom número de apresentações até aqui e inclusive marcou seu nome em alguns momentos únicos, como uma participação na segunda edição do Infrasound Fuzztival em Curitiba e como banda de abertura do giro de Florianópolis da primeira tour brasileira da banda ucraniana Stoned Jesus em 2015, dos quais inclusive arrancaram vários elogios pela apresentação inebriante e elétrica. E o álbum, seguindo as elogiadas apresentações, finalmente mostra que tais méritos não são acidentais.

“Stop Momentum”, que deve agradar bastante a ouvintes de bandas como Porcupine Tree, o próprio Stoned Jesus e mesmo do “rock retrô” sueco (e fica aqui mais um “fan service” de minha parte: a banda alemã Coogans Bluff), exerce um fascínio magnético e se alicerça em um experimentalismo abrasivo e cerebral, galgando sempre a passos acertados seu caminho rumo ao total êxito.

Lançando mão de uma variada gama de instrumentos diversos em adição ao “básico” guitarra-baixo-bateria (como sax e trompete) e nuances diversificadas, a banda logra sucesso ao apresentar uma sonoridade que transita etérea, ferrenha e muito criativa entre o rock psicodélico, o rock progressivo, o jazz rock e o experimentalismo.

Apresentando vocais diferenciados e que se destacam positivamente ao soarem ora suaves (em grande parte do tempo), ora quase esquizofrênicos em variados trechos do trabalho e contando com músicos que figuram em bandas de qualidade do cenário musical underground catarinense como Red in White, ThirdEar e Space Chickens & the Eggs of Disaster, a Cobalt Blue pega um pouco de cada elemento e isso resulta em faixas poderosas: “Cataclysm” traz uma aura mista de “retrô” e hard rock com forte toque de liberdade e experimentação musical, metralhando um punhado de eficientes riffs e contando com grande refrão e ótimas performances vocais de Julio Miotto e Fábio Ghizoni, além da presença relevante e pulsante de trompete e sax; “Drops´n Doors” é um breve, porém interessante e destacado interlúdio bem inserido no contexto do álbum, com cativantes vocais; “Catalyst” se junta a “Cataclysm” entre os ápices do álbum, apresentando uma vulcânica e atrativa introdução lançando mão de ótimo trabalho percussivo e se conectando ao melhor refrão do álbum. O desenrolar da faixa é bastante climático, quase apoteótico, apresentando uma poderosa habilidade ao permitir que a música tome vida quase que por si própria, sendo catalisada e lançada à vida e aos ouvintes através dos músicos.

“All We Have Are Oscillations” conta com partes de gravação feita por Julio Miotto e Xande Lunardelli em 2016, “Espaço Móveis Ruídos”, sendo adicionadas a camadas de som gravadas em uma inusitada locação como consta nos créditos do trabalho: uma casa que anteriormente abrigava um orfanato, décadas atrás. O arrepiante clima beira a trilha de filme de Terror. A isso, se somam os demais instrumentos, como guitarra, percussão e sax; “Dweller of the Sevenfold” e “Luciferase” constam como outros dois pontos altíssimos do trabalho, alternando esses momentos que se referem de variadas formas ao rock psicodélico (trazido para o contexto mais contemporâneo e de roupagem própria da banda) e ao experimentalismo sem amarras, exibindo fumegantes riffs e intempestivas e vibrantes intervenções vocais que fogem do lugar comum. A utilização de Hammond em “Dweller…” é mais um destaque cheio de alma e presença.

O álbum de estreia da banda baseada em Florianópolis chamada Cobalt Blue chega a soar como um apelo: que é possível, e que mais bandas devem se propor a fazê-lo, andar
fora da linha e apresentar uma sonoridade totalmente desamarrada de grilhões e baseada na criatividade e na ousadia. Claro, contar com uma escalação de ótimos músicos ajuda bastante, como acontece nesse caso. “Stop Momentum” não soa como um “acerto por acaso”, um sucesso acidental, cheirando muito mais a uma calibrada e ponderada obra resultante de habilidade, talento e intento de ousar. E isso resulta (minha opinião aqui posta) num dos melhores trabalhos de estreia de uma banda autoral já feitos no underground brasileiro.

 

 

 

FICHA TÉCNICA:
COBALT BLUE – Stop Momentum (2017)
Lançamento: 28/4/2017
Gravadora: Infrasound Records
Formato: CD / Digital
Produção: Julio Miotto & Cobalt Blue em Calamar Sounds (Florianopolis/SC)
Mix e Master: Julio Miotto em Calamar Sounds (Florianopolis/SC)
Baterias gravadas por Julio Miotto em The Magic Place Studios (Florianopolis/SC)
Artwork: Pedro Peluso
Design: Felipe Gall

COBALT BLUE é:
Fabio Ghizoni – baixo/backing vocal
Felipe Canan – bateria
Felipe Gall – guitarra
Felipe Martinez – percussão
Julio Miotto – guitarra/vocal

ADICIONAL:
Xande Lunardelli – Hammond em “Bereaved” e “Dweller of the Sevenfold”
Lucas Romero – trompete em “Cataclysm”
Julian Brzozowski – sax em “Cataclysm” e “Dweller of the Sevenfold”
Guilherme Colossi – guitarra em “Catalyst”
Xande Piazza – baixo em “Catalyst”
Fabio Mello – sax em “Catalyst”
Tom Idê – trompete em “Dweller of the Sevenfold”
Jean Carlos – trompete em “Circadian Clock”

 

Ouça abaixo: